Boato sobre fim do Bolsa Família provocou acidente e até empréstimo-relâmpago.
Na tarde do sábado passado, a
doméstica Janaína Dias, 30, em João Pessoa (PB), e a lavradora Júlia de Sousa,
32, em São Lourenço do Piauí, acreditaram no boato sobre o fim do Bolsa Família
e saíram às pressas para sacar o que seria o último benefício.
Janaína (PB) estava na casa da
mãe, no final da tarde de sábado, quando um vizinho deu o alerta: aquele era o
último dia para sacar o benefício, caso contrário o cartão seria cancelado.
"Fiquei assustada e pedi
para minha irmã me levar para casa, onde pegaria meus documentos e, de lá, iria
para a Caixa do bairro", disse a empregada doméstica, mãe de uma menina de
12 anos e beneficiária desde 2006.
No mesmo horário e a 1.070 km de
casa de Janaína, a lavradora Júlia (PI) recebeu a ligação de uma cunhada, que a
avisou sobre o fim do programa de transferência de renda que hoje atende cerca
de 13 milhões de famílias.
"Estava sem dinheiro, e com
a roupa do corpo saímos para sacar. Foi um desespero", diz Júlia, que
recebe R$ 252 mensais do programa.
De moto, ela e o marido deixaram
a zona rural e pegaram a estrada rumo à agência na cidade vizinha de São
Raimundo Nonato.
Enquanto isso, em João Pessoa,
Janaína estava na porta da agência da Caixa. A fila era enorme, havia
aglomeração de gente e ela mal conseguia se aproximar.
"Ninguém tinha informação
sobre como proceder, se a informação era mesmo verdadeira, estava uma
confusão", disse a doméstica.
Nesse momento, em diferentes
Estados do país, o tal boato já estava espalhado.
No interior do Piauí, porém,
Júlia e o marido nem conseguiram chegar ao caixa. No meio do caminho, já no
início da noite, a moto bateu em uma vaca. Os dois foram parar no meio da
estrada. Júlia desmaiou e o marido, mesmo com o ombro machucado, conseguiu
socorro.
Júlia fraturou um braço, um pé e
teve escoriações pelo corpo. A vaca morreu.
Já na capital da Paraíba, enfim,
Janaína contou com a sorte. Num supermercado ao lado da agência superlotada
também havia um caixa para o pagamento do benefício.
"Fiquei cerca de 30 minutos
na fila e consegui fazer o saque dos R$ 102."
DOMINGO
Diana (CE) e Janaína (PB) já
estavam com o dinheiro, e Júlia (PI) internada num hospital, mas os boatos
"criminosos" e "desumanos", como diria depois a presidente
Dilma Rousseff, já atingiam no domingo 13 Estados do país.
Em Vitória da Conquista (BA),
moradores de um bairro foram alertados por telefone pela líder comunitária.
A dona de casa Sandra Silva, 38,
decidiu então avisar pessoalmente os vizinhos.
"Me disseram que tinha de
ser sacado até a meia-noite de domingo e que tinha um abono de R$ 500 por causa
do Dia das Mães", afirmou.
Enquanto Sandra espalhava de
porta a porta o boato no interior da Bahia, em Parnamirim (RN) a diarista
Marcely Borges, 29, vivia uma aventura para sacar o benefício.
Uma vizinha a havia alertado:
Dilma antecipou três meses de pagamento por causa dos assaltos a bancos no RN e
o montante, assim como no boato espalhado no sudeste baiano, deveria ser sacado
até a meia-noite.
Marcely chegou às pressas na
agência e se assustou com a quantidade de pessoas. Vidros haviam sido quebrados
e até a PM já estava presente. Diante da fila, desistiu e foi à procura de
outro terminal.
Em um shopping, já na capital,
Natal, foi informada por seguranças que a agência foi fechada devido ao boato.
Ainda sem acreditar que era tudo mentira, seguiu para mais uma tentativa,
quando confirmou que seu benefício ainda não estava liberado.
"Aí me disseram que era
porque a presidente estava dando um presente, adiantando o dinheiro por causa
do Dia das Mães", afirmou.
Marcely foi dormir tranquila no
RN. Já Sandra, na BA, ainda assustada com os boatos e sem ter conseguido sacar
nada no domingo, seguiu na segunda-feira logo cedo para a agência mais próxima.
Lá, com a certeza do benefício
cancelado, decidiu sacar todos os R$ 200 do limite de crédito na "Conta
Caixa Fácil", conta-corrente disponível aos beneficiários e que cobra 2%
de juros ao mês.
"Além da notícia do
cancelamento, soube que ia ter abono por causa do Dia das Mães. Acabei sacando
tudo o que tinha disponível no banco", disse Sandra.
Uol



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