FELIPE TIAGO GOMES: O grande benfeitor de Picuí.
Se estivesse vivo, hoje (1º) de maio, Felipe Tiago Gomes, o grande benfeitor de Picuí estaria completando 94 anos. A memória desse ilustre Picuiense não pode ser esquecida.
Francisco Araújo
A inesquecível saga de Felipe Tiago
Gomes inicia-se em 1º de maio de 1921. Nascido no Sítio Barra do Pedro,
município de Picuí, na Paraíba, viveu sua infância diante de muitas
adversidades. Como o próprio Felipe citava, sua meninice foi semelhante à de
milhares de outras crianças sertanejas: pés descalços e picados por espinhos
impiedosos, mãos calejadas pela enxada, incômodos “beliscões” das juremas e do
colher juá, pequeno fruto com grandes caroços e a parte comestível mínima.
Era o filho caçula de Elias Gomes
Correia e Ana Maria Gomes. Nas horas vagas recebia lições de sua irmã
Francisca, que havia concluído o curso primário na cidade. Depois, teve aulas
na escola de Dona Nativa, pessoa adorável que se dedicava ao ensino das
crianças. Após ter frequentado a escola pública de Picuí, de 1933 a 1935,
Felipe Tiago Gomes foi conduzido pelo Professor Pereira do Nascimento ao
Colégio Pio XI, localizado na cidade de Campina Grande, Paraíba. Lá terminou o
ginásio que, infelizmente, coincidiu com a morte de sua mãe.
Não tendo mais condições financeiras
para manter-se em Campina Grande, Felipe viu-se obrigado a retornar a sua
cidade natal, Picuí. Restava agora voltar à lavoura, vivendo no tormento da
vida do agricultor sertanejo. Porém, Felipe Tiago Gomes obteve auxílio do Juiz
de Direito, José Saldanha, e do dentista Doutor Morais, que o hospedou em sua
casa no Recife.
Convidado por um colega, Everardo
Luna, Felipe foi morar na Casa do Estudante. Passou a trabalhar como porteiro e
logo em seguida conseguiu o posto de bibliotecário. Do contato diário na biblioteca,
ele pôde ter acesso a diversas obras literárias. Dentre elas, O Drama da
América Latina, do escritor John Gunther, onde é retratada uma experiência de
Haya de La Torre para a alfabetização de índios no Peru. Essa obra o
influenciou e o despertou para a criação de uma instituição que visasse
assegurar o direito de estudar aos milhares de jovens pobres. E assim foi
criada a Campanha do Ginasiano Pobre - CGP, hoje Campanha Nacional de Escolas
da Comunidade - CNEC.
Em 1944, concluiu o pré-jurídico e inscreveu-se
para os exames vestibulares da Faculdade de Direito de Recife, conseguindo
aprovação. No segundo ano, foi escolhido representante da turma junto ao
Diretório da Faculdade e, dois anos após, eleito Presidente. No último ano do
curso, foi eleito Presidente do Diretório Central dos Estudantes da
Universidade de Pernambuco, quando criou o Teatro Universitário.
Filiou-se à UDN (União Democrática
Nacional) e formou um núcleo de resistência ao governo de Getúlio Vargas em
Pernambuco. Logo após a eleição do governador Oswaldo Trigueiro foi nomeado, em
1946, prefeito de Picuí. Por nove meses foi considerado o prefeito mais jovem
do Estado e terminando seu mandato reintegrou-se à então Campanha do Ginasiano
Pobre.
É importante ressaltar que Felipe,
simultaneamente ao mandato de prefeito, cursava Direito em Pernambuco. Ao
formar-se em Direito, Felipe Gomes retornou à Picuí e recebeu homenagens dos
seus conterrâneos, que somente uma ou duas vezes viram um filho da terra obter
um título de grau superior.
Em 1948, o Professor Pereira Lira,
Chefe da Casa Civil da República, prometeu a Felipe um emprego. Prontamente ele
atendeu ao convite e viajou para a cidade do Rio de Janeiro, onde pretendia
expandir o programa da Campanha. Na Capital Federal, o Professor Pereira Lira,
por intermédio de José Gomes da Silva, político paraibano, mandara dizer-lhe
que reservara um lugar no Instituto de Previdência na Paraíba. Mas suas
pretensões não eram voltar à Paraíba e sim, permanecer no Rio para difundir a
Campanha do Ginasiano Pobre naquele Estado.
A perseverança e coragem de Felipe
foram virtudes que o auxiliaram a transgredir as muitas privações por ele
passadas. A partir da instalação da primeira sede da Campanha na cidade do Rio
de Janeiro, Felipe obteve apoio de políticos, prefeituras e diretórios
estudantis, disseminando assim o ideal cenecista nos vários estados
brasileiros. Uma tarefa ardil mas não impossível aos olhos desse grande homem.
Grande na sua humildade, grande no seu sonho de democratizar o ensino, grande
por ser o incomparável Felipe Tiago Gomes.
Em 1950, Felipe foi integrante da
Campanha de Erradicação do Analfabetismo do Estado do Rio de Janeiro,
tornando-se, em 1958, Diretor do Departamento de Ensino Médio da Secretaria de
Educação do Estado do Rio de Janeiro. Nos anos 60, foi Membro Diretor da
Associação Brasileira de Educação e, a partir dessa década, dedicou-se
integralmente, ao trabalho para o desenvolvimento da CNEC.
Em sua trajetória de fundador e
líder da CNEC, Felipe Tiago Gomes recebeu inúmeras homenagens, além de títulos
de cidadão honorário de diversos estados da federação.
Ao seu lado, Felipe Gomes sempre
teve a presença de sua inseparável guardiã, a irmã Maria Alexandrina Gomes.
Mulher austera em suas ações, exerceu um papel histórico dentro da CNEC,
participando ativamente com seu senso crítico discreto e intuitivo da
personalidade feminina sertaneja. Foi responsável pela confecção da primeira
bandeira cenecista.
No dia 21 de setembro de 1996,
Felipe Tiago Gomes faleceu em Brasília, vítima de complicações cardíacas.
Deixou milhares de órfãos, cenecistas e estudantes, que tiveram na Campanha
Nacional das Escolas da Comunidade, um meio de integrarem-se com a educação
comunitária e de qualidade. Um meio de tornarem-se cidadãos.
Por esse infindo legado, todo o
Brasil é grato a Felipe Tiago Gomes. Um homem comum que se tornou ídolo para
milhares de pessoas, e jamais será esquecido das mentes daqueles que conhecem o
verdadeiro sentido de educar.
"O professor Felipe Tiago Gomes
é em pessoa,
o Inventor, o Pai, a Própria Alma da
CNEC"
RACHEL DE QUEIROZ

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