Conselhos Tutelares 'agonizam' com insegurança e falta de infraestrutura.
Considerados
a ‘porta de entrada’ para resolver os conflitos envolvendo crianças e
adolescentes, os Conselhos Tutelares da Paraíba apresentam uma série de falhas
que comprometem diretamente a atuação dos profissionais que lá trabalham.
Ameaças, falta de carro e de combustível e não informatização dos processos são
alguns dos problemas evidentes, mas estão longe de ser os únicos. Eleitos pelo
povo para garantir o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
alguns conselheiros veem o cargo apenas como um ‘degrau’ para a política, e
legislam em causa própria em detrimento do social.
Precariedade
e improviso não faltam ao Conselho Tutelar da Região Sul, no Centro de João
Pessoa. A unidade, responsável por atender o público de bairros como Varadouro
e Cruz das Armas, é uma das cinco da capital. Embora o prédio tenha passado por
reforma há pouco mais de quatro meses, conforme relatos de servidores, a
estrutura apresenta infiltrações e rachaduras.
Na
sala dos conselheiros, onde a reportagem conversou com o conselheiro Adriano
Souza, o cheiro de mofo chega a incomodar em consequência da umidade das
paredes. O ar-condicionado não funciona e o calor contribui para deixar o
ambiente desconfortável. Os processos de atendimento do conselho estão
amontoados em uma das salas da unidade à espera da informatização, que foi
prometida há pelo menos dez anos.
As
dezenas de caixas com os papéis ficam em uma estante, sem nenhuma proteção
contra a umidade e o mofo. Os servidores do local temem que sejam perdidos, mas
afirmam que nada podem fazer. “Estamos digitalizando todos, mas é um processo
muito demorado. No ano passado nós conseguimos passar boa parte para o
computador, mas o equipamento quebrou e todo o trabalho foi perdido”, lamentou.
Outra
consequência da não informatização dos processos no Conselho é a demora no
atendimento. “A gente passa horas procurando um processo e muitas vezes não
encontra. Se o sistema fosse informatizado, certamente a realidade seria
outra”, contou uma servidora sem se identificar. A promessa de implantação do
Sistema de Informação para Infância e Adolescência (Sipia/CT-WEB) se arrasta ao
longo dos anos.
Um
levantamento nacional feito pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), do
Governo Federal, mostrou que na Paraíba, existiam em 2013, 233 conselhos
tutelares. Em relação à estrutura, apenas 40% tinham telefone celular; 85%
telefone fixo; 94% tinham computadores; 71% acesso à internet; e 23% tinham
veículo de uso exclusivo para atender à demanda da população.
Para
o promotor da Infância e Juventude de João Pessoa, Alley Escorel, a situação é
mais crítica nos municípios do interior, onde a precariedade é mais evidente.
Segundo ele, ainda há conselho tutelar funcionando de forma improvisada dentro
de uma sala de alguma secretaria municipal, sem sede fixa. A falta de carro e
de telefone, como também o desrespeito aos plantões são outros problemas
existentes nos órgãos.
Falta combustível para atender os
chamados
Imagine
a seguinte situação: o Conselho recebe, em um só dia, três denúncias de
crianças que estão sofrendo maus-tratos dentro de casa. Pela lei, os três casos
deveriam ser atendidos imediatamente, mas se isso acontece aos finais de semana
no Conselho Tutelar da Região Sul, o jeito é escolher qual ocorrência atender.
Segundo o conselheiro Adriano Souza, falta até combustível para atender aos
chamados da população. “Como cumprir o que determina o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) diante dessa realidade? ”.
Ele
explicou que nas vezes que falta combustível o conselheiro de plantão precisa
entrar em contato com a secretaria para tentar liberar outro veículo da
prefeitura. Essa comunicação, muitas vezes, demora horas para acontecer.
Enquanto isso, em algum local da cidade, uma criança ou adolescente clama pela
ajuda que parece não vir.
Outro
problema apontado pelo conselheiro é a existência de servidores prestadores de
serviço nos conselhos. “Tem muito apadrinhado político. Isso não é bom para o
conselho e muito menos para a sociedade”, declarou.
Na
capital existem cinco Conselhos Tutelares e outros dois devem ser entregues até
o final deste ano – um no bairro do Cristo e outro no Valentina Figueiredo. Com
isso, a cidade fica dentro da média prevista pelo Conselho Nacional dos
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) – que determina um para cada 100
mil habitantes.
Em Cabedelo, computador é emprestado
As
condições precárias também comprometem as atividades no Conselho Tutelar de
Cabedelo, conforme relatos dos conselheiros da região. O local passou cerca de
oito meses sem computador. O equipamento que a equipe dispõe no momento é
emprestado do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente (CMDCA),
segundo informou a conselheira Cícera Brito, que atualmente ocupa o cargo de
presidente do Conselho. Quando falta tinta na impressora os conselheiros fazem
uma cota para recarregar o cartucho, conforme revelou o conselheiro Josinaldo
Santos.
Os
profissionais demonstraram revolta e indignação durante a entrevista, que
aconteceu na sede do conselho, em Cabedelo, Região Metropolitana de João
Pessoa. No mesmo prédio funcionam dois Conselhos – o I e II. A precariedade
pode ser observada antes mesmo de entrar nas dependências do Conselho, que tem
infiltrações nas paredes e cerca elétrica destruída. A sala onde são feitos os
atendimentos psicológicos parece estar abandonada e não oferece nenhum conforto
às crianças e adolescentes.
Como
era de se esperar, o Conselho também não conta com banco de dados informatizado.
Os processos ficam amontoados em armários. “É muito cobrada a atuação dos
conselheiros no território, mas nos faltam condições para realizar nosso
trabalho de forma efetiva. O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) fica
prejudicado porque há uma violação sequenciada de direitos”, declarou Cícera.
Outro
ponto destacado pelo conselheiro Josinaldo diz respeito à localização do
Conselho, que não facilitaria a procura do serviço pela população. O Conselho
Tutelar II atende da área do Poço ao Salinas Ribamar. As outras áreas são de
responsabilidade do Conselho I.
“O
correto seria o Conselho funcionar dentro da área atendida. Infelizmente essa
distância é impedimento para que as famílias nos procurem”, declarou o
conselheiro.
JPOnline

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