Lixões ainda são realidade na maioria das cidades da Paraíba.
Dos
41 anos de vida de Rosineide de Bento Monteiro, 25 estão associados ao lixão de
Guarabira, de onde tira o próprio sustento e de quatro filhos. Além dos
materiais recicláveis que recolhe dos caminhões que chegam abarrotados de lixo,
é do aterro que a catadora muitas vezes tira o alimento que vai para a mesa.
Rosineide é um exemplo da realidade que permeia a vida de milhares de catadores
que sobrevivem de cerca de 200 lixões em todo o Estado – uma das problemáticas
retratadas na série integrada da Rede Paraíba de Comunicação “Saneamento: é
básico”, que começa hoje e vai até sexta-feira, e representa a situação dos
municípios paraibanos em relação ao saneamento, um direito básico, de todos, e
garantido pela Constituição.
Os
lixões deveriam ter sido fechados e substituídos por aterros sanitários em todo
o país desde agosto de 2014, mas como quase três mil municípios não conseguiram
cumprir as determinações do Plano Nacional dos Resíduos Sólidos - no Nordeste
essa é a realidade de 84,5% dos municípios – está em tramitação no Congresso
Nacional um projeto que estende o prazo final de forma escalonada, que vai de
2018 para as grandes cidades a 2021 para os municípios com menos de 50 mil
habitantes.
E
tudo caminha para a aprovação da matéria, já que o prazo para os gestores
locais elaborarem o Plano de Saneamento Básico já foi prorrogado pelo governo
federal por dois anos. A existência de um plano é condicionante para que o
município recorra aos recursos do governo federal para a construção de aterros
sanitários - a solução para o fim dos lixões.
Na
Paraíba, apenas 10% dos municípios compartilham de aterros sanitários. De
acordo com a Secretaria de Estado dos Recursos Hídricos, há cinco consórcios em
formação no Estado, que caminham para
prestar serviço de manejo a cerca de 70 municípios. Embora estejam
formalizados, esses consórcios ainda se encontram em fase de implantação. Eles
atendem municípios das regiões do Cariri, Seridó, Guarabira/Bananeiras, do
baixo Rio Paraíba e da Borborema.
Lixões:
só um ponto do Plano de Resíduos
Nem
o fim dos lixões, nem a implantação de novos aterros sanitários garantem o fim
do problema dos resíduos sólidos no país. O pesquisador Joácio Morais lembra
que o aterro é apenas um dos pontos do Plano Nacional de Resíduos Sólidos e que
os gestores e a sociedade ainda têm muito o que avançar. Além da precária
gestão dos aterros – o que já determinou, inclusive, o fechamento de alguns no
Estado – o especialista alerta para a ausência de coleta seletiva, algo que
tiraria muitos catadores da condição subumana de existência.
Na
cidade de Guarabira, a formação de cooperativas e a formalização do trabalho é
o sonho de todos os catadores. Rosineide Monteiro não esconde a esperança
depositada na implantação do aterro no município. “Não é certo a gente estar
aqui. Devíamos estar na rua, de farda, com o nosso carro, fazendo a coleta
seletiva e levando para o aterro. Disseram que está perto de acontecer. A gente
segue esperando”, disse. Enquanto isso, ela e milhares de catadores se submetem
a todo tipo de risco, como a aposentada Maria de Fátima, aposentada por
diversos problemas de saúde.
Maria
de Fátima usa todo o dinheiro da aposentadoria para pagar a prestação da casa
própria. O resto do sustento vem do lixão. “Tem dia que a gente não tem nada
para comer e já toma café por aqui mesmo”, conta. A catadora já perdeu as
contas de quantas vezes se machucou enquanto catava objetos recicláveis
descartados no lixão de Guarabira e, sem esperança nas ações do homem, espera
uma ação do céu. “Estou acostumada a levar furadas de frascos de alumínio. Vivo
doente direto e espero que Deus escute a gente falando e faça alguma coisa”,
disse.
Embora
não estabeleça um prazo para o fim do lixão, a Prefeitura de Guarabira informou
algumas providências adotadas pelo município para a construção do aterro
sanitário. De acordo com o chefe de gabinete da Prefeitura, Aguiberto Alves, o
município participa de um consórcio formalizado em 2013, quando 25 municípios
assinaram protocolos de intenções. Sete desses municípios, no entanto, alegaram
dificuldades financeiras e desistiram do consórcio. De lá para cá, o consórcio
evoluiu em alguns aspectos, como na escolha da área que vai receber o aterro.
Os custos de desapropriação do terreno, localizado em Pirpirituba, será rateado
entre os 18 municípios. O consórcio, entretanto, ainda vai buscar recursos para
a construção do aterro.
Pesquisador
diz que dar mais tempo para municípios desativarem lixões é absurdo
Para
o pesquisador e doutor em recursos sólidos da Universidade Federal da Paraíba
(UFPB) Joácio Morais, a mudança que estende o prazo para os municípios se
ajustarem à legislação é absurda, já que a lei de 2010 deu um prazo de quatro
anos para a adequação. “O bandido cometeu o crime e nós estamos anistiando-o”,
disse. O pesquisador lembra que o grande problema de saúde pública da
atualidade está associada ao lixo. “Em tempos de zika e microcefalia, isso é um
absurdo completo. A gente sabe que um dos causadores do foco do mosquito é o
lixo acumulado. Imagine quantos focos seriam exterminados se não houvesse água
parada em lixo acumulado?”, ressaltou.
Ainda
segundo o pesquisador, alguns municípios paraibanos foram contemplados com os
recursos destinados à construção de aterros sanitários através de editais da
Funasa, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Saúde, mas estão sendo
prejudicados pela burocracia. “Prefeituras como Vieirópolis e Poço Dantas
tiveram os projetos aprovados, mas falta a liberação de recursos”, disse o
professor, que participou da elaboração de alguns desses projetos.
O
presidente da Federação das Associações dos Municípios da Paraíba (Famup), Tota
Guedes, foi procurado para comentar o assunto, mas a reportagem foi informada
de que ele estava viajando.
JPOnline


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