Do UOL: Como se vive em Sossego (PB), onde aconteceu o 1º assassinato após 7 anos.
A delegacia, fechada por
dias seguidos, sugere a tranquilidade rotineira do município de Sossego (PB), a
240 km de João Pessoa. Em casos de emergência, o delegado da área, que atende
municípios vizinhos como Picuí, Cuité e Barra de Santa Rosa, se desloca para
lavrar um flagrante, mas vai embora em seguida, sem previsão de retorno à
pacata cidade.
Com cerca de 3.500
habitantes, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), Sossego registra índices de criminalidade baixíssimos, segundo
dados da Polícia Militar. "Não vou dizer que não há roubos e furtos, mas
são poucos", afirma o tenente-coronel Afonso Galvão, comandante do 9º
Batalhão da Polícia Militar, responsável pela segurança local.
Ele, que está há 26 anos
na corporação, diz que é o tipo de cidade onde qualquer policial gostaria de
trabalhar. "Os índices são invejáveis. Se toda cidade tivesse a calmaria
que a gente encontra aqui, a situação no país seria outra."
A tranquilidade, contudo,
foi interrompida no início de dezembro com a morte de um jovem de 25 anos,
suspeito de roubar um sítio e bater na cabeça de uma criança com um revólver.
Segundo a polícia, no dia seguinte, o dono do sítio e pai da criança agredida
resolveu vingar a violência com mais violência. Colocou uma arma na cintura e
foi à casa do acusado em busca de vingança.
Após matar o suposto
bandido, fugiu --e continua foragido até o momento. "Foi um caso muito
pontual. Tão pontual que a população e até a própria polícia se
surpreendeu", explica o tenente-coronel.
O homicídio foi apenas o
primeiro registrado desde 2011, quando aconteceu outro assassinato, também por
arma de fogo, em consequência de um desentendimento anterior entre vítima e
criminoso. Segundo a polícia, um homem chegou à frente de uma casa onde outros
dois jovens conversavam e atirou à queima-roupa.
Falar em crimes locais é
uma tarefa complicada, segundo Galvão. "Nem tenho muito o que falar porque
quase não há ocorrências", diz. O delegado seccional de Polícia Civil,
Cristiano Brito, que responde pela área, afirma que homicídios "são
raríssimos" --o caso anterior a esses é de 2008. "Isso nos dá
condições de investigar a fundo e chegar à autoria. O último caso foi elucidado
em menos de uma semana."
A PM faz rondas diárias
desde 2011. O policiamento ostensivo é feito por dois policiais, em diálogo
permanente com a comunidade.
"Conseguimos um carro
de polícia novo e armamento mais moderno. Tudo isso, aliado ao comportamento da
população, faz de Sossego um cenário perto do ideal em relação aos índices de
criminalidade", relata o delegado.
De portas abertas
É costume na cidade ficar
com as portas e janelas abertas até o entardecer, sem medo de ser roubado. "Aqui
é muito tranquilo, graças a Deus. Teve esse caso da morte do rapaz, mas ele
procurou", relata o agricultor Eduardo Lima, que há cinco anos se mudou
para Sossego. "Todo mundo se respeita... Pode dormir com a janela aberta
que não tem perigo."
Pelas calçadas, crianças
se divertem com smartphones à mostra, enquanto as mães conversam um pouco mais
à frente. À noite, os pais liberam a garotada para brincar nas ruas, o que
já não é mais possível em outros municípios paraibanos em que os índices de violência
não param de crescer.
A dona de casa Simone
Medeiros diz que a melhor coisa de morar em Sossego é a liberdade de poder
andar na rua sem o receio de ser assaltada. "Aqui ainda é possível
oferecer uma infância mais tranquila aos nossos filhos. Podemos ir ao
mercado sem medo e até chegar mais tarde de uma festa."
Também é hábito os
moradores colocarem cadeiras na frente de casa para jogar conversa fora
enquanto o almoço não fica pronto. "Aqui é o melhor lugar para viver. Todo
mundo se conhece", diz Everaldo Lima.
A panificadora Adonai,
logo na entrada da cidade, é o ponto de encontro para bate-papo. Entre uma
conversa e outra, o dono, Pedro Burity, se levanta para atender a clientela,
que ele diz conhecer pelo nome. "Aqui é um paraíso", declara.
Morando em Sossego há
quase 40 anos --quando a localidade ainda era distrito de Cuité--, o
comerciante disse que assalto é coisa que a população desconhece, mas opina que
a cidade já foi mais tranquila. "Hoje ainda é muito pacata, mas há 10, 15
anos era melhor. Infelizmente, hoje o vício da droga se expande para todo
lugar", diz.
Contudo, de acordo com o
delegado, os poucos crimes registrados são "de proximidade", na
linguagem policial. "Não são ocorrências relacionadas a tráfico de drogas,
como é costume em cidades maiores. A cidade tem uma tradição de crimes não
violentos."
"Quem anda direito
não tem o que temer", resume o comerciante Pedro Francisco Alves.
Uol




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