Prédio desaba durante incêndio no largo do Paissandu, centro de SP.
Um incêndio de grandes
proporções no centro de São Paulo causou o desabamento de um prédio de mais de
20 andares na madrugada desta terça-feira (1). O prédio é uma antiga sede da
Polícia Federal no largo do Paissandu.
Ao menos um homem que era resgatado quando
o prédio desabou e uma mulher e suas duas filhas gêmeas estão desaparecidos e
os bombeiros fazem buscas entre os escombros com o auxílio de cães farejadores.
Durante a madrugada, o
incêndio atingiu outros prédios no entorno da antiga sede da Polícia Federal.
Entre eles, a Igreja Martin Luther teve sua estrutura danificada. O templo é a
primeira paróquia evangélica luterana da capital, inaugurada em 1908. Por volta
das 9h da manhã, um incêndio voltou a consumir o topo de outro prédio no largo.
Moradores do prédio que
desabou afirmam que o incêndio começou por volta da 1h30 após uma explosão no
quinto andar. Eles desconfiam que se trate de um botijão de gás. Após a
explosão, houve fogo e fumaça pelo prédio.
A costureira Iraci Alves diz
que estava no prédio quando o fogo começou. "Foi uma explosão muito forte.
Saí só com a minha roupa", diz. Ela afirmou que parte interna do prédio
era de madeira e, por isso, o fogo se alastrou muito rápido.
Iraci dava uma entrevista
para uma emissora de TV quando gerou indignação nos demais moradores ao falar
que a ocupação pedia apenas uma taxa opcional. "É mentira. Estão falando
invasão, mas todo mundo pagava aluguel. Eu pagava R$ 200", disse um
estudante de 16 anos. Segundo ele, as condições de segurança do local eram
péssimas.
A peruana Gredy Yune, 50,
disse que os organizadores da ocupação chegaram a pagar juros. Ela mostrou à
reportagem um carnê que marcava as mensalidades.
A responsável pela ocupação,
dizem os moradores, é uma mulher conhecida como Nil. Segundo eles, a mulher
desapareceu após o incêndio.
A Polícia Militar e o Corpo
de Bombeiros dizem que somente a perícia poderá confirmar as causas do
incêndio. Bombeiros buscam por desaparecidos, moradores dizem que havia pessoas
no topo do prédio no começo do incêndio.
Foram enviados 160 agentes e
57 carros do Corpo de Bombeiros para a ocorrência, além de unidades da Polícia
Militar, SAMU, CET e Defesa Civil.
De acordo com a área de
comunicação da Prefeitura de São Paulo, a Defesa Civil está no local para verificar
possíveis danos nos prédios vizinhos e a CET está organizando bloqueios na
região. A SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social)
está providenciando abrigamento para as famílias.
CONDIÇÕES PRECÁRIAS
Inaugurado em 1966 para ser
a sede da Cia. Comercial Vidros do Brasil (CVB), o prédio que desabou nesta
terça-feira (1) abrigou durante muitos anos a Polícia Federal. Após anos vazio,
o prédio foi ocupado irregularmente por movimentos de luta por moradia.
Os próprios moradores
relatam que o prédio tinha condições precárias de manutenção e estruturas de
madeira, que podem ter agravado o incêndio.
O prefeito Bruno Covas, que
esteve logo cedo no local, disse à imprensa que já estava em tratativas com a
União para tomar conta do lugar. "A prefeitura agiu no limite de sua
função. Cadastramos as famílias e já estávamos buscando receber esse
prédio."
O prefeito disse que agora a
prioridade é prestar auxílio aos atingidos. Segundo ele, 191 pessoas foram atendidas
nos abrigos da capital.
Cerca de 150 famílias que
moravam no prédio que caiu foram cadastradas pela secretaria de habitação.
Destas, 25% eram de estrangeiros.
Bruno Covas não soube dizer
quantos prédios estão invadidos na capital. "Sabemos que oito prédios do
entorno estão na mesma situação deste que pegou fogo", afirmou o prefeito.
Também presente no local, o
governador de São Paulo, Márcio França (PSB) disse que as famílias desabrigadas
serão cadastradas e levadas para abrigos, e também podem se candidatar a
receber aluguel social para procurarem um novo lugar para viver. Ele também
chamou o caso de "tragédia anunciada".
"Não tem a menor condição
de morar lá dentro. As pessoas habitam ali, desesperadas. Volto a repetir que
essa era uma tragédia anunciada", continuou.
De acordo com o governador,
são pelo menos 150 imóveis ocupados irregularmente no centro de São Paulo, a
maioria deles de particulares.
França também citou
dificuldade em desocupar prédios por conta de liminares.
"Essa sub habitação não
tem solução, essas pessoas precisam ser tiradas daí. É preciso boa vontade e
compreensão do Ministério Público e da magistratura para não dar liminares.
Porque quando dão liminares, as pessoas vão ficando lá e quando acontece uma
tragédia dessas todo mundo fica triste. Vamos torcer para que tenha alguém
ainda vivo ali embaixo".
FAMÍLIAS EVACUADAS
Moradores da ocupação
tiveram que deixar para atrás documentos, eletrodomésticos e animais de
estimação quando o incêndio começou.
A dona de casa Deise Silva,
31, mãe de sete filhos, conta que a família estava dormindo quando o fogo teve
início. Moravam no prédio havia um mês.
“Escutei gritos, achei que
tinha gente brigando”, diz ela, que mora com cinco filhos, a mais nova de um
ano. “Quando falaram que tinha fogo, acordei as crianças e saí correndo.”
“O prédio desceu, parecia um
tsunami”, lembra a dona de casa Maria Aparecida de Souza, 58, que morava no
quarto andar havia quatro anos. “Não deu para tirar nada.”
O aposentado Miguel Angelo
se machucou na mão com estilhaços de vidro da janela. “Acordei e a energia
tinha acabado. Foi uma gritaria, uma correria”, lembra.
Cerca de 80 pessoas viviam
no lugar, segundo moradores. Cada família tinha um quarto e os banheiros
ficavam no corredor.
As famílias pagariam uma
taxa de R$ 160 por mês à coordenadora da ocupação para ter direito a um quarto
no prédio, segundo uma moradora que não quis ser identificada.
O ferreiro Carlos Augusto
Soares, 46, espera que a prefeitura ofereça abrigo para as famílias. Morador do
lugar há quatro anos, conta que não conseguiu sequer salvar a sua gata de
estimação durante a fuga.
Uma assistente social que
atua na região e preferiu não ser identificada contou que ocorriam
desentendimentos entre os moradores e os líderes da ocupação.
Júlia Zaremba , Rodrigo
Borges Delfim , Artur Rodrigues e Dhiego Maia (Folha de São Paulo).


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