Neurofibromatose: mãe e filha na Paraíba convivem com doença rara que atravessa gerações: 'O povo se afasta da gente, mas entrego na mão de Deus’.
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| Mãe e filha vivem com doença genética rara, na Paraíba — Foto: Arquivo Pessoal / Edilson Filho |
Maria Rita, de 75 anos, e a filha, Maria das Dores, de 54
anos, moram em Casserengue, no Agreste do estado, e vivem com neurofibromatose,
uma condição genética rara que causa diversos tumores nos nervos da pele.
Antes do diagnóstico, a vida já acontecia, mas com
dificuldades. Maria Rita, de 75 anos, mora sozinha em Casserengue, no Agreste
da Paraíba, e mantém a própria rotina mesmo após perder a visão e conviver com
diversos problemas de saúde. A filha, Maria das Dores, de 54 anos, vive a
poucos metros de onde mora a mãe e enfrenta limitações físicas e condições
precárias de moradia.
Só depois de muitos anos mãe e filha passaram a reconhecer um
nome para parte do que atravessa suas histórias: a neurofibromatose, uma
condição genética rara que causa diversos tumores nos nervos da pele, e se soma
a outros desafios de saúde - e de sobrevivência.
Em Maria Rita, os primeiros sinais da neurofibromatose
surgiram ainda na juventude, em 1970, quando os tumores começaram a aparecer
pelo corpo. Sem acesso a acompanhamento médico e precisando trabalhar desde
cedo, Rita seguiu a vida sem tratamento.
"Eu não tive jeito de cuidar da doença, quando começou a
aparecer, eu ainda era muito jovem. Notei os primeiros caroços depois do parto
da minha primeira filha. Hoje, também sinto muita dor no corpo, tenho problema
de coração, gastrite...", conta.
A cegueira veio anos depois. Há cerca de 20 anos, perdeu a
visão em decorrência da catarata. Foram três cirurgias, mas sem repouso
adequado. Sem quem assumisse as tarefas da casa, voltou cedo à rotina. Mesmo
sem enxergar, ela conta que continuou cozinhando no fogão a lenha e cuidando do
lar. Sem ver as chamas, passou a se orientar pelo calor. As queimaduras se
tornaram frequentes.
"Quando dá 5h da manhã eu já estou em pé. Mesmo sem
enxergar faço de tudo. Nunca parei de cuidar das minhas coisinhas. Fiz três
cirurgias no olho, mas como não tinha quem fizesse as coisas para mim, não tive
repouso. Quando perdi a visão de vez, tive que fazer as tarefas de casa na
força, tentando. Eu me queimava muito, porque eu não enxergava nada para fazer
as comidas", disse Rita.
Rita conta que trabalhou na roça desde os 15 anos, teve 16
filhos e passou a maior parte da vida cuidando da casa e da família. O marido
morreu há 27 anos. Desde então, vive sozinha.
Maria Rita diz que ela e a filha convivem com esse tipo de
reação há anos. “O povo se afasta da gente. Tem gente que não quer nem sentar
onde eu sentei, quando eu me levanto de algum lugar. Ficam debochando”, conta.
Ela afirma que, apesar disso, tenta não reagir. “Às vezes fico triste, mas
entrego tudo na mão de Deus.”
‘A rotina da gente é muito difícil, muito sofrimento’
A filha, Maria das Dores, mora a poucos metros da casa da
mãe. A proximidade, no entanto, não significa facilidade. Ela vive em uma casa
de taipa, sem banheiro. Para fazer as necessidades básicas, afirma que
"precisa ir ao mato" e espera a noite chegar para conseguir tomar
banho com alguma privacidade.
Além dos tumores, convive com uma escoliose severa, que
provoca dores constantes e limita os movimentos.
“Minha coluna dói muito. Tem dia que não consigo varrer o
terreiro. Fico travada. A rotina da gente é muito difícil, muito sofrido. Não
tenho fogão a gás, a cidade é longe”, diz.
Ela conta que percebeu os primeiros sinais da doença após o
nascimento do primeiro filho, semelhante ao caso da mãe. Na época, não buscou
atendimento especializado.
Redes sociais expõem rotina, diagnóstico e preconceito
enfrentado pela família.
Foi a rotina das duas que levou o filho de Maria das Dores,
Edilson José, de 29 anos, a criar um perfil em uma rede social para relatar o
dia a dia da família e tentar arrecadar doações para despesas básicas e de
saúde.
“Foi uma situação delicada para expor a história. Minha avó
vive com um salário mínimo, tratando problemas no coração e dores. Nas redes
sociais eu passo as informações, tiro dúvidas e faço toda a prestação de contas
das doações que chegam para as pessoas verem”, relata Edilson.
A partir das publicações, surgiram comentários de pessoas que
relatavam histórias semelhantes e sugeriam que os sintomas poderiam estar
ligados a uma condição genética. Com isso, a família passou a buscar
informações mais específicas sobre a condição.
Em 2024, Maria Rita conseguiu passar por um neurologista e
recebeu o diagnóstico de neurofibromatose. A filha, no entanto, ainda não teve
acesso ao mesmo atendimento.
“Onde elas moram não tem médico especialista. O médico que
minha mãe vai é clínico geral, e os exames pelo sistema público demoram muito.
A gente começou a ‘descobrir’ a doença pelas redes sociais, com pessoas
comentando e aparecendo casos parecidos”, explica o neto.
Apesar da visibilidade e da troca de conhecimento, as redes
também trouxeram episódios de preconceito. Segundo o neto, parte dos
comentários nas publicações foi marcada por julgamentos, deboches e mensagens
ofensivas.
“Teve muito comentário maldoso e desnecessário. Teve
preconceito, teve ameaça. Mesmo assim, eu continuei, porque precisava ser forte
por elas. Isso acontece na rua, na igreja, em todo lugar. O padre precisa ir
até a casa delas, porque as pessoas evitam contato”, diz.
O que é a neurofibromatose
A médica geneticista Rayana Maia explica que a
neurofibromatose é uma condição genética caracterizada, principalmente, por
alterações na pele e pelo surgimento de tumores ao longo do sistema nervoso. Os
sinais podem aparecer desde a infância ou se intensificar ao longo da vida.
“É uma condição genética, com sinais e sintomas progressivos
ao longo da vida e que variam muito, mesmo dentro de uma única família. Essa
doença causa principalmente sintomas na pele, como manchas 'café com leite',
presentes desde nascimento, e os neurofibromas cutâneos, que surgem
especialmente após adolescência" ,explica.
De acordo com a especialista, cerca de 50% dos casos é
hereditário e a quantidade de tumores varia de pessoa para pessoa. Além dos
tumores na pele, a condição pode estar associada a dores crônicas, dificuldades
de aprendizagem, alterações neurológicas e outros problemas de saúde.
O tratamento, segundo a médica, é voltado para o controle dos
sintomas e o acompanhamento contínuo é fundamental.
"A quantidade [de tumores] é muito variável, alguns não
tem e outros tem inúmeros. O tratamento é sintomático, de forma geral e varia
muito! O acompanhamento deve ser regular e individualizado, tanto por essa
variabilidade, como porque são sintomas progressivos", disse a médica.
Por Janinne Vivian, g1 PB


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