PALAVRA DO SENHOR– Iluminar e dar sabor - Por Edjamir Silva Souza, Pe. e Psicólogo
Na Primeira Leitura (Is 58,
7-10) somos mais uma vez acompanhados, em nossa reflexão semanal, pelo grande
profeta Isaías. O contexto é a reconstrução de Jerusalém (538 a.C). Jerusalém
estava destruída e o domínio dos Persas recordava aos que retornaram do Exílio
da Babilônia, para Judá, que eles não estavam totalmente livres.
Em meio a este contexto de
reorganização há uma queixa de Deus ao povo: a denúncia de um culto vazio e
estéril que não consegue sair do coração (ritualismo e exterioridade) e nem
corresponde às questões da vida (cf. Is 58, 1-12), por isso, não tem o legitimo
respeito ao dia santo (cf. 58, 13-14).
O que agrada a Deus nunca
foi ou será a multiplicação de orações, palavras e cultos, mas como as pessoas
se colocam dentro dele e como vivem a sua espiritualidade (os frutos da vida
espiritual). Qual a resposta concreta de fé que o povo dá ao projeto de Deus.
No universo das praticas
religiosas o “jejum” expressa a ideia da renúncia ao estilo de vida
desgovernado que sempre causa situações de pecado (como o egoísmo). Ao ponderar
a si mesmo e purificar-se desses pecados o penitente vai aprendendo a ser mais
humilde e humano e, consequentemente, está apto a acolher o projeto de Deus.
Caso contrário, todas estas práticas se tornam vazias e longe do seu sentindo
original (espiritual- catequético-testemunhal).
A idéia do jejum é que atos
de piedade moldem as pessoas ao estilo do projeto de Deus e, só assim, podem
agradar ao Senhor e obter dele a intervenção para ocorrer tudo bem (58, 2). No
texto, Deus começa a se queixar do povo. As pessoas começam a perceber que Deus
não estava mais respondendo. Então, começaram a se queixar de Deus: “para quê
jejuar, se Deus não faz caso? Para que se humilhar se Deus não presta a
atenção” (58,3). E Deus responde, por meio do profeta: “É que no diz de vosso
jejum só cuidais de vossos interesses, oprimis os vossos empregados, jejuais
fazendo rixas e disputas, dando bofetadas” (58, 3b-4).
O Senhor, então, responde
por meio do profeta: “reparte o pão com o faminto, acolhe os pobres e
peregrinos em tua casa, veste o nu e não despreses a tua carne (...). Se
destruíres teus instrumentos de opressão, deixares os hábitos autoritários e
língua maldosa e se acolheres de coração aberto e prestares socorro ao
necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como
meio-dia.” (58, 7-10).
DEUS DETESTA QUEM PROCURA
VIVER UMA ESPIRITUALIDADE e seus atos de piedade, mas sem conversão: EXPLORANDO
os pobres, TRATANDO COM VIOLÊNCIA de toda a ordem. ASSIM, TUDO SE TORNA UMA
GRANDE MENTIRA. E o culto não chega ao céu (58, 5).
Falando pelo profeta Amós
(5, 21-24) o Senhor disse ao povo:” Eu odeio e desprezo sua festas religiosas;
não suporto as suas assembleias solenes. Mesmo que vocês me tragam holocaustos
e ofertas de cereal, não me agrado deles. Mesmo que me tragam as melhores
ofertas de comunhão, não darei a menor atenção a elas. Afastem de mim o som das
suas canções, não ouvirei a música de suas liras. Em vez disso, corra a retidão
como um rio e a justiça como um ribeiro perene”.
O mesmo Deus que nos falou
pelos profetas também nos ensina hoje que não devemos nos enganar com o
frenesir de igrejas lotadas, cultos sofisticados, madrugadas de orações,
excesso de zelo com as coisas do culto se não há pessoas se humanizando e
aprendendo a respeitar os outros. NINGUÉM ENGANA A DEUS.
O jejum que agrada a Deus é
o cumprimento dos deveres éticos e humanos para libertar os oprimidos, eliminar
as injustiças (históricas), a violência, o autoritarismo que promove a
intolerância, a agressão e as ameaças (cf. Is 58, 6). O jejum servirá para
ensinar e promover a empatia na vida social. Esse é o fruto de quem tem
espiritualidade.
O Evangelho deste domingo
(Mt. 5, 13-16) continua a catequese das Bem Aventuranças, que escutamos domingo
passado, e atualiza a primeira leitura de hoje. Jesus usa uma linguagem
simbólica (“sal da terra e luz do mundo”) para indicar alguns critérios para
aqueles que querem segui-Lo e como devem testemunhá-Lo.
Sal e luz são apresentados
como critérios de serviço: o sal dar sabor e a luz dissipa as trevas. O sal e a
luz não são consumidos pelo que são (autoreferência), mas pelo que bem que
trazem as coisas.
O evangelho nos faz algumas
perguntas: o que se vive em nossas comunidades é a boa noticia? Será que nós conseguimos
dar ao mundo algo que dê vida? que supere o clima de rixas, competições,
autoritarismos, agressões? Ou ainda achamos que esses sinais de trevas são
sinais de zelo apostólico?
No Espírito das bem
aventuranças os cristãos aprendem as coisas puras do Reino de Deus: a pureza
das intenções, a superação do egoísmo e da corrupção, a acolhida e compreensão
para com todos, o perdão, o amor fraterno, o compromisso com a justiça, o
cuidado para com os mais vulneráveis e o espírito de paz.
É tarefa dos cristãos
dispersar os sinais de trevas contribuindo para a eliminar de toda espécie de
preconceitos, calúnias e fazer chegar a luz da verdade aos ambientes
corrompidos pela hipocrisia. O mundo espera que nós cristãos tenhamos o bom
sabor de ser humano capaz de influenciar a sociedade ao bem. Ninguém diz: “como
o sal é bom!”, mas diz “que comida saborosa!”. Tornar o mundo santo é dar sabor
a ele, mas santidade não é um conceito vazio ou pessoas cheias de enfeites e
práticas religiosas sem sentido algum, que não sabem dialogar com as coisas da
vida.
Na segunda leitura (1Cor 2,
1-5) o apóstolo Paulo nos faz pensar que santidade não é militância de
instituição religiosa que quer se sobrepor na altivez e arrogância, mas de
serviço humilde e humano, pois assim é que demonstramos o poder da Palavra e
ação do Espírito Santo (v.4). NOSSOS ANOS DE VIDA DE IGREJA JÁ NOS ENSINARAM
ISSO? AS IGREJAS SE ALINHAM COM A PALAVRA DE DEUS?
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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