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PALAVRA DO SENHOR – Era cego e agora vejo

No Evangelho deste domingo (João 9, 1-41) “Jesus vê o cego de nascença” (v. 1). Nos evangelhos, a ação de ver de Jesus já implica uma ação de relação salvífica com alguém (cf. Mc 12, 41-44. Mt 9, 9. 36. 14, 14 Lc 7,11). A ação de ver requer um olhar com atenção e interesse. Jesus caminha entre as pessoas e a todos enxergou com esperança de uma nova possibilidade de vida. 

“Quem pecou para que ele nascesse assim?”. A pergunta nos leva a uma teologia retributiva. Segundo a teologia de Israel, sua ferida significa que é do fruto pecado. Jesus supera essa lógica e não atribui a uma causa do passado, mas uma possibilidade da ação de Deus no presente: “Ele está assim para que se manifeste a obra de Deus” (Jo 9, 3). Jesus diz que não é uma questão de pecado, mas uma oportunidade da ação salvadora de Deus.

“Eu sou a luz do mundo” (Jo 9, 5). Jesus caminha entre nós oferecendo a luz do Pai, que é luz da vida. Da cegueira a visão, das trevas a luz é o itinerário batismal (é páscoa). Nossas feridas humanas são oportunidades da ação salvífica de Deus.

“fez lama (...) espalhou nos olhos do cego” (Jo 9, 6) este é um gesto que nos lembra do relato da criação (cf. Gn 2,7). Como um enviado do Pai, Jesus cumpre sua missão de fazer nascer uma nova criação.

“Quem te fez isso? Um homem chamado Jesus!” (v. 11). Quando iniciamos um caminho de conversão ainda estamos meio que desorientados.  “Onde ele está? Não sei” (v.12). A visão é recuperada gradativamente, a adesão de fé também. Um processo diferente dos fariseus e Mestres da Lei que, mesmo vendo, estão cegos à luz da fé. O farisaísmo e o legalismo são sintomas de cegueira do coração. O evangelho denuncia que quando pensamos que estamos saudáveis é, na verdade, que estamos cegos. E ai começa-se um processo de resistência. Quando pensamos que estamos salvos, descobrimos que ainda estamos enraizados na descrença. Quem se julga muito honesto, quase sempre esconde a sua corrupção. É sempre uma narrativa que é uma cortina de fumaça. É A FALSA SEGURANÇA.

“Quem é ele para que eu creia? Já o viste é aquele que fala contigo!” (v. v. 36-37).  “Ver” e “Ouvir”. “Luz” e “Palavra”. Quem O escuta de coração aberto, também O verá com o coração. É o catecumenato que leva a maturidade de fé. E, só assim, poderá professar a fé e seguir: “Creio, Senhor” (v. 38).

“Sabemos que é nosso filho, que nasceu cego. Como está enxergando não sabemos” (v. 20). É um comportamento defensivo, por medo de ser excluído e mal visto por todos. Os pais estão sacrificando o filho por medo de perder o status social. Percebam que eles estão fazendo manutenção da posição social, medo de perder o lugar de respeito e serem excluídos. É uma pressão social sobre esta família que põe em risco o pertencimento ao grupo. 

“Os judeus ameaçaram quem declarasse que Jesus era o Messias” (v. 22). Eis a pressão social e o medo como mecanismo de manipulação. Jesus é o Cristo rejeitado pelos fariseus, mas também rejeitam que o cego tem autonomia.

“Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso” (v. 31). As autoridades religiosas do povo estavam cegas pelo orgulho. Zelosos e devotos, mas muito presunçosos. Na concepção deles, Deus só se manifesta os perfeitos, pois essa é a imagem que eles têm de si mesmo. E Jesus desmonta, mais uma vez, esse discurso moralista (é a mesma mensagem da primeira leitura de hoje (1Sm 16, 1b.6-7.10-13a)).

“Interrogai-o, pois ele é maior de idade” (v. 23). O cego passa a ter uma voz própria e uma tomada de consciência (maturidade). Ele não é a penas um sujeito de piedade ou objeto de discursão dos outros (tribunal dos fariseus), mas passa a ser livre. Ele passa a ser sujeito de sua própria história. É como se ele dissesse: “eu sei o que vivi e posso falar por mim”. É o processo de individuação que estamos falando desde o primeiro domingo da quaresma. Ele caminha para a totalidade de seu self. É o objetivo que temos de ser uma pessoa completa.

“Era cego e agora vejo” (v 25) Este é o novo estilo de vida. Ele dá testemunho de que é capaz de ver o que Jesus o ensinou a ver. Diante deste testemunho os fariseus expulsaram o cego de nascença. Os fariseus são autoritários e querem manipular as pessoas com a religião. Detestam quando veem que alguém abriu os olhos. Eles preferem a cegueira do povo, pois assim fica fácil de manipular. Na cabeça deles, o povo é corrupto de pecado e eles são os mais honestos. Desconfiem de gente assim...Começam com excesso de piedade, escrupulosos demais. E na aparência de perfeição....o domínio sobre os outros.

Carl Gustavo Jung (1975-1961) afirmava que a sociedade compartilha uma espécie de inconsciente coletivo. Jesus faz a cura do cego de nascença, mas também a cegueira coletiva de uma sociedade que vive na superficialidade do mundo dos conceitos e arquétipos de um tradicionalismo farisaico. 

No evangelho, cada personagem demonstra estar cego e resistente por alguma coisa. Como já dissemos, os fariseus estão cegos de orgulho. Os discípulos estão cegos numa teologia legalista (causa-efeito) de uma crença antiga e limitada e não conseguem perceber uma situação maior que é a glória de Deus.  Os pais do cego de nascença estão cegos por conveniência, isto é, pelo medo de serem expulsos da sinagoga. O povo estava cego pelo preconceito para com o cego e com a ação de Jesus. Eles estão tão acostumados pela cegueira que tem medo de aceitar o novo que bagunça a “realidade”. Eles preferem a ignorância e a cegueira, que abrir os olhos para compreender. É a resistência a mudança de paradigmas. Eles vêem com os olhos, mas tem resistências para compreender o novo. A ironia do evangelho faz-nos perceber que o cego de nascença parece ser o único saudável ali.

Há verdades que ameaçam nosso equilíbrio. No inconsciente coletivo, as pessoas fazem resistência. Há grupos que fazem barreiras de forte pressão e oposição. A resistência a viver coisas novas é sinal de que há um tradicionalismo enraizado e ameaçador que é sinal de incredulidade. Qual a tua cegueira? 

Todos nós temos nossa zona de cegueira e, por causa das muitas pressões ou pontos de resistências, temos dificuldade de enxergar com clareza. Há uma frase atribuída a J. Lacan que diz “cada um alcança a verdade que consegue suportar”. 

A cura, processo de individuação, começa quando começamos aceitar desafiar a nossa cegueira e ampliar nossa compreensão de nós mesmos. A cura também começa quando questionamos nossas crenças, as pressões que nos oprimem e os medos que nos limitam (receio de sair da zona de conforto).

Há uma canção de um produtor sueco que diz: “A vida vai passar por mim se não abrir os olhos” (DJ Avicii).

Boa semana!

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

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