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PALAVRA DO SENHOR – Um novo espírito e um novo coração

Que maravilha ouvirmos os textos propostos para este 3º Domingo da Quaresma. Apesar dos muitos “ruídos” que incomodam o silêncio quaresmal e faz doer o coração (as guerras, as injustiças, a violência crescente contra mulheres e crianças), Deus continua nos falando, pois quer saciar a sede de vida.

Talvez a nossa oração não modifique o mundo ao nosso redor, mas ajuda a discernir como vamos enfrentar a realidade (dentro e fora de nós). Mas, o que fazer com o “barulho do mundo” e o que fazer com aqueles “ruídos dentro de nós”? Vamos meditar a Palavra de Deus...

Na 1ª Leitura (Ex 17, 3-7) encontramos o povo de Deus, caminhando para a terra prometida. Era inicio da sua jornada e havia muita imaturidade. Há um frequentemente desejo de retornar à terra da escravidão.

As dificuldades do caminho desorganizaram o povo e incomodaram ao ponto de se revoltarem contra Deus e Moisés (v. 3). 

Nesse contexto são citados dois povoados: Massa e Meriba. Massa representa provação e Meriba simboliza discórdia. Confusão e falta de fé estão em cena neste texto e representam a nossa jornada humana.

Massa e Meriba são experiências de perder a calma e a tentativa de buscar fora a solução do que precisamos (está dentro). Perdemos a calma com os outros a partir da bagunça que está dentro de nós. Moisés e Deus são as figuras símbolos do que projetamos das nossas insatisfações. Pois, dentro de nós, há um deserto, lugar mais primitivo de nossos conflitos recalcados e angústias, que estão sempre procurando uma forma de se manifestar.

A murmuração é a resistência à mudança ao novo e pode se tornar um comportamento destrutivo. O povo viu ser libertado, mas ficou preso no saudosismo. Estando no caminho da liberdade, não conseguem avançar. Eles têm medo de serem livres.   

“O Senhor está ou não no meio de nós?” (17,7). O povo parece não mais perceber que Deus caminha com ele e a ingratidão gera muita murmuração, queixa e confusão. O povo começa a acusar Deus de ter enganado e arrastam também Moisés para dentro de críticas quase sem saída. A comunidade caiu na descrença e, consequentemente, nos “ruídos” das queixas. E como Deus reage? Deus atua com muita paciência, respondendo com gestos concretos e os oferece a Água Viva.

Da “rocha ferida” ao um povo saciado. O apóstolo Paulo, séculos depois, irá sugerir que Cristo – o Filho de Deus que veio ao mundo ao encontro dos homens – para dar-lhe àgua viva. Jesus é a verdadeira rocha (ferida) que mata a sede de vida (cf. 1Cor 10, 4/ Jo 19, 31-37).

O Salmo 94(95) é um apelo para que se confie em Deus e não se feche o coração como o povo em Massa e Meriba.

Na 2ª leitura (Rm 5, 1-2.5-8) Paulo faz uma releitura significativa: a rocha é Cristo. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

O trecho do Evangelho (Jo 4, 5-42) que fala da Samaritana e a fina psicologia de Jesus, no diálogo com esta mulher, é encantador. Não é só a Samaritana que está com sede, mas também o Filho de Deus, “cansado da caminhada e se senta no poço” (v. 6). Mais uma vez encontramos Jesus diante de suas necessidades.

Em torno de um poço, um diálogo. A psicanálise ensina que quando começamos a falar de nossos “ruídos”, quando os nomeamos, eles começam a se diluir aos poucos. É verdade que muitos de nós temos dificuldades de falar de nós mesmos e o medo de ser julgados. Há muita gente pronta para julgar e condenar. Como Jesus tratava isso? No evangelho, a Samaritana falou de si e Jesus olhou para ela não com os olhos do mundo (acusativo). Jesus nunca olha para as pessoas com olhar de seus acusadores, mas com o olhar amoroso do Pai. Portanto, olhe para “seus ruídos” e para os “ruídos do mundo” como Jesus olhava.

“Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). É fantástico ouvir que o Filho de Deus sentiu as mesmas coisas que sentimos. Ele experimenta a condição humana para dar-lhe o significado pleno que o pecado havia ofuscado. Ele experimenta que, no caminho da vida, toda pessoa prova a sua realidade “faltante” e de “desejo”. E sabe que o ser humano é desafiado a aprender como lidar com isso e que, em meio ao medo de caminhar sozinho (medo do abandono), se pergunta: Deus está conosco? Até os santos dialogaram com Deus tentando entender o processo (cf. Lc 1, 34. Mt 1, 19-23. Mt 26.).

A Samaritana, diferente do povo da primeira leitura, se abre ao diálogo. Naquele poço, ela é acolhida com um amor que não lhe condena, mas foi convidada a tomar uma água que produz vida dentro de sí.

O texto diz que era “meio-dia” (Jo 4, 6) É o horário de um clima intenso, mas também do ponto alto do dia (da vida). Este foi o horário que “Jesus estava suspenso na cruz e as trevas dominaram o mundo até às 3h da tarde”. Esta é a hora do amor. É nessa hora que ambos têm sede (Jesus e Samaritana). Ele tem sede das bem aventuranças (cf. Mt 5, 6). Ela tem sede da Água Viva (do amor de Deus).

O “cântaro” é o símbolo de certa defesa (já é tradição buscar àgua nesse poço). Ela está apegada ao seu cântaro. Depois do diálogo com Jesus, ela deixa o cântaro. Ela abandona os antigos mecanismos de defesa para assumir uma nova posição na vida.

Os cinco maridos e já o sexto aponta para um padrão de repetição (compulsão e repetição). Ela está tentando preencher um vazio em pessoas que não lhe saciam. O objeto de desejo dela é sempre fugaz e todos eles deixam marcas de abuso.

Há uma estrutura de rejeição (Judeus e samaritanos), mas também uma necessidade de repetir...repetir...repetir padrões, tentando encontrar-se nestes outros. Ela está se marginalizando e terceirizando sua existência em pessoas que não lhe faz “pessoa”. Diante disso, Jesus, o Amor, não julga, mas lhe abre o caminho da verdade e da vida. Ele atua como um espelho que a faz pensar nos amores que ela tanto buscou. Ela a fez entender a si mesma (cf. Jo 4, 29).

A Samaritana está, em pleno apogeu de sua vida, mas isolada nos amores que não lhe saciam. Jesus a faz deixar o cântaro e ir para cidade (uma nova interação social). Ela sai de um lugar existencial de julgamentos (mulher de má reputação) para “aquela que testemunhou”. É uma nova identidade, refeita no amor. É ali que ela acolhe a àgua viva e a grande luz.

Nossa vida é marcada por desejos que se entrelaçam com a construção de nossa identidade: o que sou e o que quero? Como diz Jacques Lacan o “objeto do desejo” não satisfaz mais impulsiona a repetição. E a repetição é o retorno ao redor desse vazio. Jesus dialoga como uma analista que faz perceber e confrontar essa repetição e frustação. E a faz liberta-se com um novo proposito.

O deserto ou o poço se tornam lugares de transformação. É lugar de transição “da escravidão” para “a libertação”. E essa travessia exige um pouco de angústia. Ali, descobrimos os recursos internos que estão muitas vezes enrijecidos (pedra). É ali que descobrimos que isso é uma travessia.

O Egito, Massa e Meriba (lugares de escravidão e confusão) simbolizam a ausência de referência segura. São lugares de falsa sensação de segurança (lugar de risco/ angustia/pulsão de morte) que se instalam dentro de nós como mecanismos de defesa. É fundamental quebrar a rocha para satisfazer as necessidades. Simbolicamente, Cristo é a rocha ferida que sacia a sede. Com Ele aprendemos que qualquer causa da nossa existência só faz sentido quando a vida se torna um dom para os outros (doação) e nunca alienada no outro.

Feliz dia Internacional da Mulher! Menos violência e mais respeito! Boa semana para todos!

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

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