PALAVRA DO SENHOR – Aprender a reconhecer Jesus
O evangelho para este domingo (Lucas 24, 13-35) nos põe no
caminho com dois discípulos que vão para Emaús. O texto nos coloca dentro de um
contexto pascal: da morte para vida, das trevas para luz, da tristeza para a
alegria. Em meio a esta narrativa há uma palavra que desejamos meditá-La neste
domingo: RECONHECER.
Semana passada, fechando o ciclo da Oitava da Páscoa,
dizíamos que três verbos ficaram muito presente ao longo dos primeiros dias
pascais: “ver”, “acreditar” e “testemunhar”. Ao conjunto destes verbos
acrescentamos RECONHECER.
Reconhecer vem do latim recognoscere, formada pelo prefixo
“re” (novamente, outra vez) mais “cognoscere” (conhecer, saber). Significa,
literalmente, trazer à mente de novo, voltar a conhecer ou identificar.
Os discípulos de Emaús estão presos ao trauma do evento da
cruz e não conseguiam trazer à mente, de novo, Jesus Ressuscitado. Só no gesto
familiar do partir o pão é que a resistência cai e eles podem finalmente
perceber que a verdade já estava ali caminhando com eles, mas precisavam de um
sinal concreto, como Tomé também pediu, para saber juntos como “cognoscere”.
Aqueles que tinham e tem proximidade com Jesus sabiam/sabem
as palavras e os gestos que Lhes são tão próprios: mansidão, humildade,
propagador da paz, lavava os pés como gesto de serviço humilde e não
presunçoso, não gostava de ser comparado com as autoridades perversas do mundo,
era sutil, muito acolhedor; mesmo sendo Deus, não se vangloriava de seu poder,
nunca quis estar acima de ninguém, mas ao lado; não era apático ao sofrimento
dos pequenos e excluídos, ao contrário, amava conviver com estes. O texto de
hoje acaba sendo mais uma catequese de “quem era Jesus” e como “identificá-Lo”.
No evangelho de Lucas, o caminho é sempre pedagógico. É no
caminho da vida que Jesus, se aproxima e faz o discípulo reconhecê-Lo através
de sinais que são tão próprios Seus e da Nova e Eterna Aliança.
Em nossa cultura, há uma forte tendência, advinda de alguns
grupos cristãos enraizados na teologia do Antigo Testamento, interpretando
Jesus aos moldes de um messianismo davídico.
Davi foi uma figura aceitável na cultura judaica, pois era um
grande líder soberano e militar. Corajoso e grande rei que lutava em nome do
“Senhor dos Exércitos”. Assim como Deus é soberano, poderoso, rei, comandante
supremo (esses eram adjetivos atribuídos a YHWY no período final do tempo dos
Juízes (1 Sm 1, 3)) Davi era também apresentado assim. Aqui reside um
messianismo davídico, esperado e desejado, que Jesus, o Cristo de Deus, fez
cair por terra.
Há muitas versões de Jesus, no meio cristão, que contrasta
muitas vezes, radicalmente, ao jeito Dele ser. Por isso, é fundamental voltar à
sua mensagem, refazer o caminho, para compreender e reconhecê-Lo de novo. O
Cristo do Evangelho não é mais reconhecido por tantos véus de doutrinas,
pregações, rubricas, interesses mesquinhos de nosso tempo. Qual o Cristo entrou
em teu caminho?
A impressão que temos, em nosso tempo, é que existe um Jesus
transitando no caminho das pessoas, que já não partilha mais o pão, que não
pensa mais na paz, não tem compromisso com a fraternidade, um Cristo imaturo e
puritano, que não se identifica mais com os excluídos, mas com os senhores,
tiranos e opressores. É um “senhor dos exércitos” birrento, arrogante,
narcisista e desumano. Qual o Cristo entrou em teu caminho?
“Os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram Jesus no
partir o Pão” (Lc 24, 31). Isso tocava a sensibilidade e a identidade dos
primeiros cristãos (cf. Atos 2, 42). Cuidar, acolher o outro, partilhar, louvar
na simplicidade e alegria (cf. Atos 2,47b) parece ter sido esquecido ou mesmo
distorcido em muitos lugares. Há pregações que beneficiam a
auto-referencialidade do pregador (um culto a sua personalidade) e não o
Projeto Salvífico de Deus, anunciado por Jesus.
Não queremos mais a coerência com o Evangelho, mas o que
vamos ganhar com isso: prestígio, dinheiro, notoriedade, etc. Há cristãos que
já não sentam mais na mesa da eucaristia para se encontrar com Jesus, mas com
aquele “pregador famoso” e as ideologias de seus ídolos: os novos “Senhor dos
Exércitos”.
A cruz é a grande pregação do amor radical: “Deus amou tanto
o mundo, que entregou o seu Filho” (Jo 3, 16). Mas, os discípulos ficaram
confusos com aquele sinal. A cruz não é um sinal de dolorísmo, mas de amor.
Este sinal se alinha a outros tantos sinais da vida de Jesus que é preciso
voltar a reconhecê-Lo para poder segui-Lo e testemunhá-Lo.
Os discípulos reconheceram Jesus, porque sua mensagem de
“partilha”, que é mensagem de “amor fraterno”, é para sempre. Ela entra em
todos os lugares, momentos e situações da vida humana. Os sinais do amor de
Deus se multiplicam nas muitas e novas situações atuais, mas nunca perde o
essencial que a Tradição deve testemunhar. Esse é o caráter dinâmico da
verdade: onde reina o amor, Deus ai está.
Amar e seguir Jesus, em pleno século XXI, não é repetir
fórmulas teológicas vazias, esquemas de poder veterotestamentários para
justificar guerras e exclusão de pessoas, retornar aos hábitos de piedade do
Sinédrio. O Espírito de Deus, que recebemos no batismo, reconfigura o discípulo
à vida nova em Jesus Cristo.
“Como sois lentos para entender” (Lc 24, 25). Jesus não se
torna um peregrino-forasteiro para quem reconhece Seus sinais de amor. Muitos
grupos pretendem ressuscitar este messias “davídico e senhor dos exércitos” do
que acolher Jesus, o príncipe da paz.
O sofrimento de Cristo, aos moldes do “Servo Sofredor”, que
Jesus acolhe como sua identidade, derruba qualquer projeto de revanchismo,
triunfalismo, de destruição; de matar quem não acredita, como nós acreditamos.
Essa é a chave de leitura para reconhecer Jesus Ressuscitado.
Precisamos resgatar a memória do Deus que se identifica com
os pequenos e não com os grandes; com os excluídos e não com os que excluem.
Essa é mais uma noite da história que precisamos caminhar com Jesus: “Fica
conosco, Senhor!” (Lc 24, 29).
Em Lucas, os muitos caminhos de Jesus nos levam a uma mesa. A mesa é o lugar da partilha, da fraternidade e do acolhimento. A mesa e o pão são para todos. Igualdade e fraternidade é o Projeto de Deus pelo qual Jesus foi odiado, perseguido e assassinado. O Cristo, crucificado não é um fantasma e nem sua mensagem é uma fantasia. Entorno desta mesa, permitam-me perguntar mais uma vez: Qual o Cristo entrou em teu caminho e sentou na tua mesa?
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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