PALAVRA DO SENHOR – Roubar, matar e destruir.
Chegamos ao 4º Domingo da
Páscoa na certeza de que Jesus Ressuscitado decidiu, ao nosso convite, “ficar
conosco” (Lc 24, 29) para “explicar as Escrituras” (v. 27), fazer “arder o
nosso coração” (v. 32), “partilhar o pão” (v.30 31) e fazer-nos RECONHÊ-LO (v.35).
Desde a época de Jesus
existe um imperativo que deve ser nosso primeiro passo na vida cristã:
“segue-me!” (Mt 19, 21). A cada domingo somos convidados a RECONHCER Jesus e os
sinais do seu Reino. Hoje, escutamos que “as ovelhas O seguem, porque conhecem
sua voz. Mas não seguem a voz de estranhos” (Jo 10, 4-5). Neste domingo (do Bom
Pastor) a pergunta é: sabemos reconhecer a sua voz (da verdade) entre tantas
outras (da mentira)?
A temática do bom/mau pastor
é muito próxima da temática dos verdadeiros e falsos profetas. Os discursos dos
falsos profetas (AT) e as mensagens do Bom Pastor (Jesus no NT) podem parecer
superficialmente semelhantes, pois ambos falam de “paz”, “segurança” e
“cuidado”. No entanto, a Sagrada Escritura faz uma distinção ao dizer que os
falsos profetas mentem para agradar e obter lucro anunciando uma paz
superficial (Jr 6, 14. 8, 11) oferecendo um conforto ilusório: “nenhuma mal
virá sobre vocês”; aos que viviam mergulhados no pecado e sem arrependimento. O
Bom Pastor fala a verdade, sacrifica-se para buscar o bem comum das ovelhas e
oferece uma paz que muda as estruturas de interesses e pecados humanos:
mentira, egoísmo, injustiça, exploração, preconceitos, etc.
Quando lemos a Sagrada
Escritura nos deparamos com estas figuras singulares na história de Israel
(particularmente importante no período da monarquia). São pessoas que pretendem
falar em nome de Deus tanto aos reis, autoridades e o povo. Com maior
naturalidade eles insistem em dizer: “Assim, diz o Senhor Deus”. Eles se arrogam
o privilégio de terem escutado aquele que ninguém pode ouvir, de ver aquele que
ninguém pode ver e se apresentam como seus representantes.
Por paradoxo que seja Deus é
a causa última dos falsos profetas, porém os meios e os resultados divergem da
bondade e do projeto de Deus. E o próprio Deus os utiliza como prova de
fidelidade e amor do povo (Dt 13, 2-4).
O livro dos Reis diz que
Deus aconselhou os reis, na presença de Miquéias, a não fazer guerra e prevê a
morte de Acabe se a campanha acontecer. E induziu aos 400 profetas do rei à
mentira: “O Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos os profetas aqui
presentes, mas é a tua perda que o Senhor decretou (1Rs 22,23). Deus provocou o
falso profetismo a fim de punir o rei idólatra. Assim, Deus chamou o seu povo,
frente a decadência de um rei idolatra, a reconhecer o Seu caminho e a Sua
verdade.
Os Falsos profetas ou maus
pastores são pessoas de vida moral pouco recomendável (cf. Is 28, 7. Jr 23,14.
Ez 13, 22). De um lado, os falsos profetas são reconhecidos pelo seu amor ao
lucro (Mq 3, 5. 11. Ez 13, 19) para ganhar o favor dos grandes
(burguesia/aristocracia) e receber aplausos do povo (cf. Is 30, 10. Am 2, 2.
7,13. Jr 11, 21. 28, 1-11.; 1Rs 22, 8-27). Engam o povo prometendo paz e
segurança, quando na verdade são promotores de uma falsa sensação de paz.
Acabam se tornando
instrumento útil nas mãos dos grandes contra o povo simples. Há uma ruptura
entre aquilo que eles anunciam e o que Deus deseja. Eles não são fiéis à
aliança de amor, mas sabem fazer alianças escusas com ricos e poderosos para
prejudicar os pequenos.
Na esteira da denúncia surge
Jesus (Jo 10, 1-10) dizendo que os maus pastores se caracterizam por “roubar,
matar e destruir” (v. 10) ao mesmo tempo em que Se apresenta com as credenciais
de “Pastor de ovelhas” que além de cuidar, tira as ovelhas do caminho dos
perversos (v. 2s). Este duro discurso é uma dura acusação contra os fariseus
(cap. 9).
Jesus acusa os fariseus de
aprisionar as pessoas, mas Ele é a porta que faz entrar e sair, isto é,
transitar com liberdade, para dar vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10). O
pano de fundo deste texto é a profecia de Ezequiel: “vocês se nutrem das
ovelhas, mas não cuidam da ovelha ferida” (34, 1-16).
“E, depois de fazer sair
todas as que são suas, caminha a sua frente” (v. 3-4). É próprio de Deus o dom
da libertação. O cheiro do evangelho é o cheiro da libertação. O redil não é um
cercadinho de pessoas “isoladas”, “alienadas” e “egocêntricas”. Entrar pela
porta, que é Jesus, e encontrar-se com Ele, permite que Ele seja o único pastor
que faz mudar a vida de uma pessoa. Mas, não é só mudar de lugar (quando
necessário), mas faz mudar a sua maneira de se relacionar consigo e com o
mundo, para ter vida plena (cf Sl 22(23)).
A presença de Jesus enche o
mundo de paz e de verdadeira justiça. Ele faz as pessoas terem vida e vida em
abundância (cf. At 2, 42-47). Há mais respeito pelos pobres, mais acolhida e
compreensão. Onde Jesus é o Senhor, não há necessitados, não existe exclusão
(raça, gênero, cor, etc) Com Jesus o cristão não tem medo de nada e nem de
ninguém, pois Ele é a salvação. Mas, para isso, é fundamental a conversão
(cf.At 2, 38).
Na Oração Eucarística III,
na sessão de intercessão, o sacerdote diz: “Confirmai na fé e na caridade a vossa
igreja, enquanto caminha neste mundo”. Somos uma comunidade peregrina neste
mundo. Os falsos profetas e os maus pastores disseminam medo e mentira para
oprimir os que são missionários do amor e da misericórdia. Mas, não devemos ser
amedrontados por causa destes. Já passamos pela porta-liberdade que é Jesus, ou
ainda estamos presos no cercadinho? Sabemos trilhar o caminho da bondade (vida
para todos) ou a idolatria da ganância ancorou na nossa existência pessoal,
familiar e povo?
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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