Investigador na Paraíba recebe R$ 4 milhões em esquema de revenda de drogas apreendidas: 'A polícia paga merreca'.
Segundo a investigação, ele
liderava uma quadrilha com policiais envolvidos com venda de entorpecentes,
proteção a foragidos e relações com facções criminosas.
Policiais que deveriam
combater o tráfico negociavam drogas com facções criminosas, desviavam
apreensões da delegacia e orientavam criminosos a escapar da Justiça, mostram
gravações obtidas com exclusividade pelo Fantástico.
Vídeos e áudios mostram
conversas em que os policiais tratam o comércio ilegal como uma atividade
empresarial. O esquema levou à prisão de um delegado e dois investigadores da
Polícia Civil da Paraíba na última terça-feira (2).
Uma das gravações mais
recentes mostra o investigador Everton Aires, conhecido como Bomba, resumindo a
lógica que guiava o grupo. "É jogo, meu filho, é jogo. Isso é negócio,
isso não é pessoal, é negócio".
Em outro registro, ele
compara o tráfico a um negócio comum. "É o mesmo que você estar vendendo
qualquer outra coisa. Só que, em vez de você estar vendendo relógio, você está
vendendo droga".
A investigação apontou que,
nos últimos cinco anos, Bomba recebeu mais de R$ 4 milhões em suas contas,
valor incompatível com seu salário de cerca de R$ 8.500. A quantia teria sido
obtida com a revenda de cocaína, crack e skunk apreendidos em operações
policiais.
"Eu trago tanto
hormônio como suplemento desde 2007. Os 'anabols' [anabolizantes] deixam para
mim mais do que o meu salário do Estado. A polícia paga uma merreca",
afirmou Bomba em um dos áudios.
As declarações contrastam
com o discurso que o investigador mantinha publicamente. "A gente tem que
agir dentro da legalidade porque a gente não é milícia", disse o
investigador em um podcast.
Ele também afirmou que
policiais conhecem em detalhes a rotina dos criminosos. "A gente conhece
os vagabundos, a mãe dos vagabundos, o irmão do vagabundo, a avó do vagabundo,
onde ele morava, onde ele mora, conhece tudo".
Mas o Ministério Público e a
Polícia Civil afirmam que Bomba conhecia os bandidos de outra forma: como chefe
de uma quadrilha que mantinha negócios com traficantes. "O cara que mais
vende aqui sou eu. Se for para me sustentar só com o salário da polícia, não
dá, não", disse Bomba em um áudio.
Outro áudio mostra Bomba
mencionando um contato para vender drogas para a facção criminosa Comando
Vermelho.
Quadrilha protegia
foragidos, diz investigação
Everton Aires, o Bomba, não
é o único investigado. Outros suspeitos são o investigador Eduardo Jorge, o Mão
Branca, que chegou a ser homenageado na Assembleia Legislativa da Paraíba pelos
"serviços prestados", e o delegado Braz Morroni, o Braz.
A investigação começou em
maio de 2025, após um traficante acusar policiais civis de roubarem uma carga
de drogas. A Polícia Civil concluiu que os entorpecentes retirados dos
criminosos não eram encaminhados na totalidade para procedimentos legais, mas
revendidos a outros traficantes.
Os três policiais negociavam
com ao menos quatro criminosos e protegiam foragidos ao avisá-los de operações
com antecedência.
Entre os beneficiados,
estaria José Alexandrino Júnior Lira, conhecido como Júnior Lira e investigado
por participação em ataques do chamado Novo Cangaço contra bancos e
carros-fortes no Nordeste.
Em uma gravação, Lira afirma
que contava com o apoio de um policial para vender entorpecentes. Em outra
conversa, relata que recebeu oferta de ajuda para expandir as vendas até
Mossoró (RN).
"O fato de serem
agentes do Estado dá àquelas pessoas um poder de quem está ali, ciente,
acreditando realmente que está blindado. É algo muito grave e que precisa ser
combatido com toda força", disse o procurador-geral da Paraíba.
A operação realizada na
terça pelo Gaeco e pela Polícia Civil prendeu nove pessoas, incluindo Bomba,
Mão Branca e Braz. As defesas negam irregularidades.
O advogado de Bomba afirmou
que o devido processo legal se instaurou e que o policial não aceita as
acusações.
O advogado de Mão Branca
disse que não é crível que policiais possam estar negociando drogas abertamente
e que podemos estar diante de um processo de assassinato de reputação.
O advogado de Braz sustenta
que não há nada que exponha a participação consciente do delegado nos fatos
investigados.
Júnior Lira, suspeito de
integrar o Novo Cangaço, também foi preso. Sua defesa disse que a
"inocência será demonstrada" e que ele é "alvo de uma perseguição
policial".
Por Fantástico


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