Últimas Notícias

PALAVRA DO SENHOR – Duas vidas e um só Evangelho.

CELEBRAMOS COM ALEGRIA A FESTA DE PEDRO E PAULO, APÓSTOLO E COLUNAS DA IGREJA. Desde o século III que a liturgia celebra as duas colunas da Igreja. Mestres inseparáveis de fé e caridade que nos serve de muita inspiração para a vida cristã.

Na 1ª leitura (Atos 12, 1-11) encontramos uma forte oposição de Herodes aos membros das primeiras comunidades. Querendo manter uma boa relação e agradar o mundo do Judeus, Herodes manda matar e prender alguns pregadores da Boa Nova (v.v. 1-3). A morte violenta de Tiago nos faz lembrar que ele prometeu beber do mesmo cálice reservado para o Senhor, quando a mãe lhe fez aquela proposta indecente de poder (cf. Mt 20, 20-28. Mc 10 ,35-40).

Os apóstolos se tornaram responsáveis de propagar o que o Mestre os ensinou. Essa missão sempre trará conflitos com as forças opressoras das sociedades. Jesus já tinha dito isso aos discípulos que a missão não seria fácil. Agora, imaginemos o que se passava na cabeça e no coração de Pedro, as vésperas da Páscoa, sendo preso. A mesma cena do Mestre agora na vida do discípulo (cf. Jo 15,20. Mt 10 24-25).

E como a comunidade se comportou? Mesmo separada de Pedro, os demais membros continuavam unidos orando por ele. E a libertação de Pedro pode ser entendida que Deus está atento ao que reza a comunidade de amor. Ele está presente na vida da Igreja e garante a continuidade de Seu projeto no testemunho de todos. A dura perseguição contra a Igreja não a desestabilizou, apesar do medo, mas o amor entre eles e a certeza de que Deus está no meio deles, deu muita coragem a todos.

Nestas ultimas semanas a liturgia tem nos feito perceber o quanto a obra de Deus enfrenta oposição e deboche. Domingo passado refletíamos a crise do profeta Jeremias que enfrentou perseguição e abandono inclusive por parte de amigos e familiares. Celebramos o nascimento de João Batista, mas lembrando o duro fim que teve. Hoje, vemos a morte dos primeiros apóstolos. Portanto, não é bom ficar fantasiando demais o seguimento a Jesus. 

Nem tudo é oposição, mas elas existem e são persistentes. Aqui no Brasil, durante a época da ditadura militar (e mesmo recentemente) muitos bispos eram vigiados e perseguidos por se oporem ao sistema de escravidão e defender o povo. A vocação profética de defender a vida sempre foi uma pedra de tropeço para os grandes.

O papa Francisco foi, inclusive, ameaçado de desestabilizarem seu ministério petrino e de morte. Ameaças de grandes empresários (elites) em concubinato com membros da igreja, grupos que se consideram como “conservadores da fé e dos bons costumes”. Eles não estão fora, mas dentro da vida comunitária e gostam dessa mancebia e promiscuidade de poder destrutivo com a fantasia de piedade.

Na 2ª leitura (2Tm 4, 6-8. 17-18), Paulo escreveu a Timóteo (1º bispo de Éfeso) falando de sua vida dedicada ao evangelho de Jesus. As primeiras comunidades eram afetadas pelo desânimo por causa das perseguições e falsas doutrinas que se espalhavam com muita frequência e facilidade. Eram doutrinas que distorciam os ensinamentos de Jesus. Estando na prisão, em Roma, Paulo escreve para as comunidades para reanimá-las na força do evangelho que ele acolheu e testemunhou.

Paulo deixou a “vida acomodada” e “estabilizada” que ele tinha para se dedicar integralmente a propagação do evangelho. De perseguidor a perseguido. De um obcecado e zeloso das tradições de sua religião a um profundo apaixonado por Jesus Cristo e o evangelho da libertação, do amor e da vida.

Desde a Ásia até a Europa o apóstolo Paulo fundou comunidades. Passou por dias difíceis: sem lugar para pernoitar, fome, prisões, resistências de todos os lados, etc. Dentro desse contexto ele amadurece sua vocação e faz crescer as comunidades pregando o evangelho e escrevendo para elas.

Nestas cartas, ele não teve medo e vergonha de dizer o que tinha deixado para trás por causa da fé e suas novas convicções em Jesus Cristo. Relembrando sua história no judaísmo ele diz que pode ter motivos para se gloriar do que fez na função de zeloso das tradições de seu povo. Mas, prefere se gloriar da sua “fraqueza” de ter deixado isso para trás. O que era vantagem ele considera uma honra ter perdido por cauda de Jesus e Seu Evangelho.

As primeiras comunidades testemunham que o “sim” a Jesus vai causar muitos problemas. Temos consciência disso? Nosso cristianismo (pessoal /comunitário) é autêntico? Temos a coragem de calcular como perda a futilidade do mundo, o zelo pelo tradicionalismo, os títulos e posições de glória e poder? Temos a coragem de sair da lógica das vantagens para a dinâmica da simplicidade? Estamos empenhados na construção de comunidades e em estender as mãos aos sofredores e excluídos ou nos empenhamos mais nas burocracias institucionais? Vivemos em comunidades ou em instituições?

No Evangelho (Mt 16, 13-19) Jesus leva os discípulos a Cesareia de Filipe (região pagã) para perguntar o que as pessoas compreendem sobre Ele e sua missão, mas também para perguntar se os discípulos compreendem que Ele é e o que Ele quer deles?   

O evangelho diz que as pessoas tinham dificuldades de compreender aquilo que Jesus representava. Jesus é muito mais do que um pregador, mas o Filho de Deus que veio ao mundo revelar a face misericordiosa de Deus.

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Eis a profissão de fé de Pedro. “Feliz és tu Simão, Filho de Jonas, porque não foi nenhum ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17). Eis o elogio a fé de Pedro, feita por Jesus.

A fé de Pedro não é um mérito próprio, mas um dom gratuito. Pedro representa a Igreja nascente que está aberta a acolher as propostas do Reino de Deus anunciadas por Jesus. 

Em oposição a Pedro e a Igreja estão os romanos e as lideranças religiosas (fariseus, doutores da lei, escribas...) que resistem a sair de suas certezas históricas e privilégios, da sua acomodação social e segurança, dos preconceitos que causou tanto mal a sociedade. Por causa disso excluíram e mataram a muitos irmãos que Jesus os amava.

Jesus constrói sua igreja na Pessoa e na fé de Pedro (como nas primeiras comunidades) porque Ele sabe que estes vão dar a vida em favor dos que são excluídos. Quando a igreja perde de vista a sua causa, perdeu a originalidade de sua vocação de anunciar o Reino de Deus. Esta mesma igreja vencerá a morte e terá a vida eterna. Essa é a Palavra final sobre todos nós. Essa é autentica confissão de fé que estava sendo construída em meio às perseguições. Essa é a Igreja de Jesus.

As chaves do Reino de Deus estão nas mãos de Pedro (e seus sucessores), dos apóstolos (e seus sucessores) e de todos os membros da Igreja, mas a fé em Jesus e no seu Reino tem que se manter coerente. Para Pedro, Jesus era o Messias. Para Paulo, a razão de toda a sua vida. E para nós? Que eles intercedam por todos nós. 

Neste dia, rezemos pelo Papa Leão XIV e por toda a Igreja.

Boa Semana!

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

Nenhum comentário