PALAVRA DO SENHOR – Segui-Lo, mas imitando-o.
Depois de uma longa
caminhada de dias festivos reencontramos o tempo comum. A celebração litúrgica
reencontra seu aspecto comum, a nobre simplicidade, com mais serenidade e
sobriedade para se encontrar com o Senhor que caminha conosco no ritmo comum da
vida.
Em nossas comunidades
retomamos a leitura do Evangelho de Mateus (proposta para este ano – A). E
nesse domingo, o próprio Mateus faz uma memória de quando ele, num dia comum,
sentado na coletoria de impostos (considerado um impuro) recolhendo impostos para
os romanos (pagãos), viu Jesus o chamar para segui-Lo. A expressão “seguir”
está fortemente presente nas leituras de hoje e dão o sabor de nossa meditação
neste domingo.
Na primeira leitura se diz:
“É preciso saber segui-lo para conhecer o Senhor” (Os 6,3s). E, no evangelho,
escutamos: “Jesus disse-lhe: ‘Segue-me’”. Não se conhece Jesus apenas estudando
as Escrituras, Catecismo, Palestras, Cursos, etc. As primeiras comunidades
cristãs tinham consciência de que “Segui-Lo e Ouvi-lo” é fundamental na dinâmica
de quem quer fazer o caminho do Reino de Deus.
No evangelho proposto para
este domingo (Mt 9, 9-13) se diz que “Jesus seguiu Mateus até sua casa e,
depois, Mateus passou a seguir Jesus” (v.9a).
Mateus leva Jesus à sua
casa, outros também vão. Estes são considerados impuros e pecadores e todos
estão à mesa com Jesus. Estes se sentem muito a vontade com Jesus e Jesus ainda
mais com eles. Mas, tem alguém que não está muito feliz com aquilo. Os fariseus
(separados) não queriam se misturar com os pecadores. Estavam até dispostos a
pregar para eles e mandar se converterem, mas sentar-se à mesa (lugar da
fraternidade e convivência) isso era impossível.
Os próprios discípulos de
Jesus, que vieram do discipulado de João Batista, acharam isso muito estranho. É
até concebível distribuir alimentos para eles, rezar por eles, até mesmo fazer
comunidade com eles, mas comer com os pecadores isso é impossível.
Jesus tem consciência de sua
missão de anunciar o Reino de Deus e formar o Povo da Nova Aliança e sabe muito
bem por onde começar. Ele não é um fanático pregador proselitista como os de
sua época e da nossa que faz barulho com palavras ao vento, um pregador
romântico-egocêntrico que acredita que pregar o Reino é colonizar mentes e
liberdades a uma obediência e servilismo sufocante e infantil.
Para saber seguir Jesus é
fundamental “segui-Lo” para onde Ele quer nos levar. E dentro destes contextos
buscar entender a dinâmica do Reino de Deus e a vontade de Deus: dentro de um
hospital, no meio família, nas redes sociais, dentro de um presídio, dentro de
um grupo que defende os direitos e a dignidade das pessoas (particularmente as
pessoas excluídas), na universidade, etc.
Indo ao encontro das pessoas
em suas diversas situações existenciais, Jesus fez ali sua morada e sua
“Eclésia”. Não foi no meio dos fariseus que depositando seus dízimos ou fazendo
tudo àquilo que a liturgia manda e que se consideravam mais honestos e
escolhidos. Jesus atua no meio dos pecadores. E esta é uma sabedoria “do alto”
que muitos pregadores não conseguem alcançar.
Na mesa do fariseu é
ofertada sacrifícios para comprar a benevolência de Deus. Ali reside a lógica
pagã do “quem da mais”. Quem dá mais tem os melhores lugares, as melhores
“capitanias hereditárias paroquiais”, etc. Mas na mesa do Reino não existe a
“meritocracia” dos esquemas humanos.
Na mesa dos fariseus existe
um Superego enrijecido que gosta de ser tratado como os melhores, os mais puros
e conservadores de suas ideologias e tradições. São arautos de suas verdades,
dentro de uma neurose obsessiva de ideias de “lei pura”, “raça pura”. Para
eles, o valor do ser humano se dá na honradez do cumprimento rígido e
inflexível de normas. É o “Ideal do Eu” inflado que esconde fraquezas e quase
sempre projetadas nos outros (aquilo que não admitem que também tem dentro de
si). Socialmente são muito bem vistos, pela idéia exterior de honestidade.
“Não vim para os que se
julgam justos” (Lc 5, 31-32). Jesus valida a “falta humana”, isto é, a
fragilidade. E são para estes que Ele diz: “segue-me”. Jesus faz a gente
perceber que quem se acha perfeito estão blindando seu ego e não se abrem a
transformação possível.
O olhar de Jesus para Mateus
é desidentificador. Ele não se identifica com os puritanos, mas com os
pecadores. E ensina que na mesa do Reino só há misericórdia, fraternidade,
solidariedade.
Na mesa do Reino, Deus não
quer sacrifícios, mas pede que as pessoas que sentam com Ele tenham mais amor e
misericórdia com os últimos. A mesa do Reino é o lugar onde aprendemos a
fraternidade.
Na sua casa, a sua mesa é,
também, expressão do altar de Deus? As pregações que você gosta de ouvir
convergem com a lógica do Reino ou com o mundo dos fariseus? Todas as vezes que
sentamos a mesa com Jesus, devemos dizer: “eu não sou digno, Senhor”...”Tenha pena
de mim”.
Caminhando com Jesus
aprendemos muito sobre Deus e este conhecimento não é intelectual, devocional,
mas relacional. Andar com Jesus faz-nos sair dos manuais de regras para
estabelecer relações maduras. E isso se chama espiritualidade. Lembremo-nos do
que disse João “Quem ama conhece a Deus” (1 João 4, 8)”. Quem ama, nasceu de
Deus” (v. 7).
Sentar-se à mesa com Jesus,
evitando retaliações, faz daquele banquete e diálogo um espaço seguro para
trabalhar as dores, falhas, etc. Jesus tem aquele amor verdadeiro que
transforma. Se você se identifica com Jesus e com o seu Reino permita-se uma
virada em sua vida: Levante-se, siga-O, imitando-O.
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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