PALAVRA DO SENHOR – Uma esperança realista
Até que ponto suportamos a
realidade? Grandes autores da psicanálise (Freud. Lacan e Winnicott. Melanie
Klein) disseram, cada um de sua maneira, que tememos o real porque ele expõe
nossa impotência, desmorona nossa fantasia, nos confronta com o imprevisível.
Preferimos desde muito cedo
nos relacionar com as pessoas e o mundo a partir de fantasias que filtram o que
enxergamos. O real é o impacto bruto da vida como a certeza da fragilidade. O
ego prefere ilusões (o imaginário) e as regras sociais (o simbólico) porque
isso nos dá a falsa sensação de que podemos controlar o destino, evitar o
desamparo, as experiências traumáticas e as sensações dolorosas.
A liturgia da Palavra deste
domingo coloca em evidência, e de modo realista, as dificuldades de viver como
discípulo e testemunhar o amor de Deus no mundo. No horizonte do discípulo há
abandono, perseguições, incompreensões, medos, fugas, solidão. Mas, Deus garante
que caminhará ao lado do discípulo com solicitude e amor.
A 1ª leitura (Jr 20, 10-13)
apresenta-nos Jeremias, o “profeta chorão”. Há um realismo estupendo em seu
texto que nos permite ver a sua vida interior tão conflituosa ao ponto de
vermos um colapso do “eu”, sem muita autonomia para viver.
Na fuga constate de si e de
Deus sentiu “fogo em seus ossos”, uma linguagem comum para descrever uma luta
neurótica na tentativa de reprimir a Palavra de Deus e evitar o sofrimento que
ela lhe causou. Suas dores físicas são provas sintomáticas de uma dura negação
da realidade. De um lado, o desejo de escapar. Do outro, o uma força
inconsciente que o obriga a prosseguir.
Jeremias buscou um total
isolamento social que acarretou um estado de paranoia e um constante instinto
de morte quando amaldiçoou o dia que ele nasceu. O medo do desamparo prolongou
e se transformou em noites escuras. Essa é uma experiência que assombra a vida
do ser humano desde seus primeiros momentos: a sensação de estarmos expostos ao
mundo, dependentes do outro e a busca por um porto seguro.
Quando o ser humano
experimenta a solidão e isso começa a atravessar a maneira como você estuda,
reza ou nas outras formas de fazer a vida se mover, então, começa-se a
fragilizar aquilo que sustenta a caminhada. Convém dizer que a insegurança não
é um defeito, mas um eco das nossas incertezas. Quando o mundo exterior
diminui, então, tudo parece ficar insuportável em ter que sustentar sozinho.
Assim como Jesus (Mt 10,
26-33) o profeta Jeremias experimentou o drama de estar dentro de estruturas
(família, amigos, instituição religiosa, politica, comunidade, tradição) e
sentir-se profundamente estrangeiro e desamparado nelas. É uma experiência
terrivelmente desgastante estar em ter que ficar cercado por pessoas que não
lhe dão segurança. Ali passa a ser uma um espaço de descrença, sofrimento
intenso e o risco de um colapso imediato. Não é por acaso que Jesus disse: “Se
alguém não os receber nem ouvir suas palavras, saia daquela casa ou cidade e
sacudam a poeira dos pés” (Mt 10, 14).
Tanto para os profetas como
para o Filho de Deus a sensação foi, muitas vezes, de “profetizar no deserto”.
Esse é um peso que de certa maneira mina a segurança até mesmo naquilo que mais
dar prazer ou sentido: trabalho, estudo, namoro, casamento, família, igreja,
etc. Sustentar o cotidiano quando se desmorona a confiança nas estruturas é um
esforço psíquico tremendo.
Qual foi a saída de
Jeremias? Apesar de tudo Jeremias ainda tinha um pouco de fé para enfrentar as
desilusões, mas também encontrou saída na escrita (sua forma de registrar o
sofrimento e a ruina). Aos poucos Jeremias passou a “aceitar” que as estruturas
ao seu redor (sacerdotes, reis, falsos profetas e o templo) não mudariam e
estavam fadados ao colapso. Ele pára de esperar do ambiente, atravessa a
fantasia da regeneração destas estruturas, desvincula sua verdade dessas
estruturas e não busca delas aprovações.
Mesmo com a destruição e
levado para o Egito (lugar da antiga opressão de seu povo) como forma de
sobrevivência; e mesmo ainda profetizando no Egito para um povo que não quer
ouvi-lo, Jeremias encontra na escrita uma saída para suportar tudo aquilo. Ele
não cedeu em seu desejo, mesmo na solidão radical, mas acabou construindo
narrativas que dão suporte para quem quer enfrentar a vida com uma esperança
realista. Você desiste de manter vivo o seu desejo e ideais? Consegue encontrar
saídas com facilidade?
Validar o cansaço, nunca
negar as dores, considerar que em muitas ocasiões “pregamos no deserto” faz
parte da própria vocação e serviços. É preciso fazer as falsas seguranças
desmoronarem para aprendemos a olhar para o que é essencial.
Jeremias ensina-nos (Jr 31)
que é nessa comunidade que será sempre feita a Nova Aliança, que o sucesso aos
olhos de Deus não se mede pela aprovação do ambiente, mas muitas vezes é
capacidade de sustentar a verdade em meio a solidão. O triunfo de Jeremias não
foi de habilidade politica, mas de uma vida que não cedeu ao mundo externo.
Deus não o livrou do deserto, mas o acompanhou.
Quando Jeremias diz: ”Se eu
disser: não me lembrarei dele e não falarei mais no seu nome, então, isso me
será como fogo ardente no coração” (20,9), compreendemos que ele tenta
silenciar para se proteger, ser aceito e viver em paz. Mas, no coração do
profeta há uma voz que não se cala. Ele está profundamente comprometido com o
Reino de Deus.
Jeremias assim como Jesus
chamam-nos a considerar nossa fé não se enraizando em estruturas ou sistemas
(templo, sacrifícios, aprovação coletiva). Ambos apontam para o coração como
lugar central da espiritualidade: do coração de pedra para ter um coração de
carne (isso é espiritualidade).
A esperança bíblica ensina
que é em meio as nossas vulnerabilidades mais profundas que a Palavra de Deus
deixa de ser um rito externo e superficial para ser a nossa única rocha
verdadeira. Os falsos profetas e os príncipes deste mundo são sempre as massas
que criam falsas sensações de segurança e conforto. A idéia de que “já deu
certo” sem que as transformações necessárias aconteçam, pode falsificar
realidades. Os profetas e o próprio Jesus ensinaram-nos que a solidão nem
sempre é um castigo divino, mas o preço alto da lucidez por defender os pobres,
pequenos excluídos.
No horizonte deste mês
celebraremos as solenidades do profeta João Batista e o martírio de Pedro e Paulo.
Que memória destes grandes homens suscite dentro de nós o desejo de seguir e
servir a Deus, sem medo de testemunhar o amor, mesmo na rejeição.
Boa semana! Bons festejos
juninos!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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