Aquecimento global pode custar até R$ 5,6 bilhões ao Brasil a cada 0,1°C mais quente, alerta CNI
Guia orienta empresas a
adaptar operações aos eventos climáticos extremos e às novas regras da economia
de baixo carbono
O aumento de cada 0,1°C na
temperatura média global pode provocar prejuízos de até R$ 5,6 bilhões para a
economia brasileira em razão dos desastres naturais. A estimativa consta no
Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, lançado pela Confederação
Nacional da Indústria (CNI) na quinta-feira (9), durante o evento Indústria
Resiliente: Estratégias de Adaptação à Mudança do Clima.
A publicação analisa os
impactos da crise climática sobre as cadeias produtivas e apresenta estratégias
para reduzir os riscos físicos e os desafios da transição para uma economia de
baixo carbono, considerados fatores que podem comprometer a competitividade da
indústria.
Dados do Sistema Integrado
de Informações sobre Desastres (S2iD), reunidos pela CNI, mostram que o Brasil
registrou mais de 16 mil eventos extremos entre 2020 e 2023 — uma média de 4
mil ocorrências por ano. As secas responderam por metade dos registros (50%),
enquanto inundações, enxurradas e enchentes representaram 27%, e tempestades,
19%.
O gerente de Recursos
Naturais da CNI, Mario Augusto Cardoso, afirma que a crescente frequência dos
eventos climáticos extremos exige que as empresas incorporem a adaptação às
mudanças do clima às suas estratégias de negócio. Segundo ele, a gestão dos
riscos climáticos deve fazer parte do planejamento corporativo para reduzir
impactos sobre a produção e a competitividade.
“Como a empresa vai lidar,
por exemplo, com o corte na cadeia de suprimentos? Como ela vai lidar com o
corte no fornecimento de água causado por um evento extremo? E quando há pouca
água, há muitas vezes problema de fornecimento de energia. Como a empresa lida
com isso? É preciso analisar cada uma das possibilidades de eventos, pensar se
a empresa está preparada e ver qual seria o impacto para a atividade”,
avalia.
Adaptação dos setores mais
expostos
Considerando a exposição
geográfica e a dependência de recursos naturais, o guia dedica recomendações
específicas aos setores de óleo e gás, alimentos e têxtil.
Óleo e gás
O setor concentra ativos de
alto valor em áreas costeiras e marítimas, como plataformas offshore,
refinarias, dutos e terminais portuários. Segundo o estudo, tempestades,
ressacas e a elevação do nível do mar podem comprometer estruturas, interromper
operações e aumentar os custos de manutenção, seguros e adaptação.
Entre as principais
recomendações estão:
reforço da infraestrutura;
revisão dos critérios de engenharia
para eventos climáticos extremos;
reúso e dessalinização de
água nas operações marítimas e de refino;
diversificação dos
investimentos em fontes renováveis, como a energia eólica offshore.
Alimentos
A indústria de alimentos
está entre as mais vulneráveis às mudanças climáticas por depender diretamente
do regime de chuvas, da disponibilidade hídrica, da temperatura e da
estabilidade da produção agropecuária. Secas prolongadas, enchentes, ondas de
calor e geadas fora de época podem reduzir as safras, elevar o custo de
insumos, comprometer o transporte de perecíveis e afetar tanto o abastecimento
interno quanto as exportações.
O guia recomenda ampliar
práticas de:
agricultura regenerativa;
conservação do solo e da
água;
adoção de tecnologias
capazes de aumentar a previsibilidade da produção e apoiar decisões sobre
plantio, irrigação, colheita e logística.
A publicação também defende
a modernização da infraestrutura de armazenagem e distribuição, como silos,
armazéns e centros logísticos mais preparados para enfrentar variações de
temperatura e interrupções no transporte.
Na pecuária, medidas como
sombreamento, manejo do estresse térmico e garantia de acesso à água limpa
contribuem para preservar a produtividade em um cenário climático mais
instável.
Têxtil
Na indústria têxtil e de
confecção, os riscos climáticos afetam diferentes etapas da cadeia produtiva. A
produção de fibras naturais, como o algodão, depende de condições climáticas favoráveis
e da disponibilidade de água, enquanto os processos de beneficiamento,
tingimento, lavagem e acabamento exigem elevado consumo de recursos hídricos e
energia.
Entre as recomendações
estão:
adoção de sistemas de reúso
de água e tratamento de efluentes;
modernização de equipamentos
para aumentar a eficiência energética;
ampliação do uso de fontes
renováveis, como energia solar e biomassa;
digitalização dos processos
para monitorar, em tempo real, o consumo de recursos e antecipar riscos operacionais.
O documento também destaca a
economia circular como estratégia para aumentar a competitividade do setor. A
reutilização de resíduos têxteis, a reciclagem de peças pós-consumo, a
rastreabilidade das fibras e a certificação ambiental de fornecedores reduzem a
dependência de matérias-primas e atendem às exigências de consumidores e
mercados internacionais.
Mario Augusto Cardoso
explica que a indústria precisa atuar em duas frentes complementares para
enfrentar os impactos das mudanças climáticas: reduzir as emissões de gases de
efeito estufa e fortalecer a adaptação aos eventos extremos.
“Os eventos climáticos vão
continuar acontecendo. O que queremos é reduzir sua frequência e intensidade.
Por isso, temos que estar preparados para garantir a manutenção da atividade
produtiva, dos empregos, da arrecadação e das vidas que estão em risco diante
desses eventos climáticos”, ressalta.
Desafios da transição
regulatória
Além dos impactos físicos da
mudança do clima, o guia alerta para os riscos da transição regulatória e
comercial. Um dos principais marcos desse processo é a criação do Sistema
Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº
15.042/24.
A norma estabelece
diretrizes para a entrada de instalações produtivas no mercado regulado de
carbono. Na prática, empresas que ultrapassarem os limites de emissões a serem
definidos pelo governo terão de adquirir créditos de compensação, enquanto
aquelas que emitirem menos do que o permitido poderão comercializar créditos
excedentes.
Diante desse cenário, a CNI
recomenda que as empresas antecipem a elaboração de inventários de emissões de
gases de efeito estufa e incorporem estratégias de mitigação e adaptação ao
planejamento dos negócios.
Competitividade dependerá da
adaptação
O estudo também destaca que
consumidores, investidores e cadeias globais de suprimentos exigem cada vez
mais transparência ambiental ao longo do ciclo de vida dos produtos.
Empresas incapazes de
demonstrar práticas sustentáveis poderão perder mercado, enfrentar restrições
ao acesso a financiamentos e encontrar barreiras comerciais em economias com
legislação ambiental mais rigorosa, como a União Europeia.
A publicação também
identifica oportunidades competitivas para o país, como o powershoring —
estratégia de atração de investimentos industriais baseada na ampla oferta de
energia limpa no Brasil — e incentiva o uso de instrumentos financeiros verdes,
como títulos vinculados a metas de sustentabilidade, para apoiar a modernização
tecnológica do parque industrial nacional.
A íntegra do Guia da
Indústria para Adaptação à Mudança do Clima está disponível no portal da CNI.
Encontro reúne governo e
indústria para discutir adaptação climática
Na última quinta-feira (9),
a CNI promoveu o evento Indústria Resiliente: Estratégias de Adaptação à
Mudança do Clima. O encontro reuniu representantes do governo, da indústria, de
associações setoriais, empresas e instituições parceiras para debater como
incorporar a adaptação climática às estratégias de negócios. A iniciativa
contou com o apoio do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha e da Agência
Alemã de Cooperação Internacional (GIZ).
Ao longo dos debates,
especialistas destacaram que o custo da inação tende a superar os investimentos
necessários para adaptação e mitigação dos impactos climáticos. Segundo o
coordenador-geral de Ciência do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovação (MCTI), Márcio Rojas, a falta de medidas para enfrentar os efeitos das
mudanças no clima pode provocar, até 2050, perdas de R$ 17,1 trilhões no
Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a eliminação de cerca de 4,4 milhões
de empregos.
Os participantes também
ressaltaram que a cooperação entre o setor produtivo e o poder público é
essencial para ampliar a capacidade de resposta do país aos eventos climáticos
extremos. Entre os instrumentos apresentados está o Plano Clima Adaptação,
estratégia nacional que estabelece diretrizes e ações para preparar setores
econômicos, cidades e territórios para enfrentar secas, enchentes, ondas de
calor e episódios de escassez hídrica.
Fonte: Brasil 61 -


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