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PALAVRA DO SENHOR – Os filhos do Reino são semeados por Jesus

O sentido litúrgico da Liturgia da Palavra neste 16º Domingo do Tempo Comum nos fala da bondade de Deus: “Ó Senhor, vós sois bom e clemente (...), sois tão grande e fazeis maravilhas” (cf Sl 85(86), 5. 10) que “vem em socorro da nossa fraqueza humana” (cf. Rm 8, 26), mas ao mesmo tempo nos fala da bondade de seus seguidores: “assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano” (Sb 12 19).

As três parábolas que escutamos hoje (Mt 13, 24-43) e que continuam o que ouvimos semana passada (Mt 13, 1-23), dão testemunho de que o Reino de Deus está no meio de nós. O Reino de Deus não começa no final dos tempos, mas com a semente plantada no chão da história: trigo, mostarda e fermento, este é o Reino dos Céus no aqui e agora.

Jesus é o grande semeador e interprete do Reino. Na verdade, Ele é o Reino de Deus semeado entre nós e para todos nós. Os filhos do Reino são semeados por Jesus que não teve receio de se misturar com todos. Mas, houve quem não entendeu, houve quem não quis entender, houve quem vivendo na idolatria do ouro e da prata não quis outra coisa, houve quem deixou o diabo levar a semente e houve quem deixasse o diabo semear a iniquidade dentro dele e no meio da comunidade.

O evangelista Mateus, ao escrever no inicio do evangelho, o emblemático relato das tentações de Jesus no deserto (Mt 4, 1-11), diz que também é frequente as tentações que as suas comunidades enfrentam. À medida que o evangelho discorre, vamos percebendo os ecos daquela mensagem de Jesus no deserto: trigo e joio foram semeados.

Há uma frequente tentação de grandeza, entre os discípulos de Jesus. A semente do Reino foi plantada sob o signo da humildade da cruz. O serviço humano e humilde sempre esteve nos ensinamentos do Reino. Mas, o joio, uma semente tóxica, foi semeado no meio do trigo. Existem servos muito zelosos que se envaideceram e trouxeram muita divisão e desordem desprezando os outros. Zelo (trigo) e desprezo (joio) infelizmente é uma tentação frequente nas comunidades.

A pequena “semente de mostarda”, sinal do Reino de Deus, contrapõe a mania de grandeza dos que estão na vida comunitária, mas também na sociedade.

O profeta Ezequiel (cap. 17) imaginou o Reino de Deus como o Cedro, o rei das árvores colocado numa alta montanha (Texto paralelo Mt 4, 8-10: “O diabo levou Jesus para um monte alto, mostrou-lhes todos os reinos do mundo e suas grandezas e disse; ‘Eu lhe darei tudo isso se você se ajoelhar e me adorar’”).

A ‘pequena semente’ não chama muito a atenção, mas, silenciosamente, chega a todos os lugares e abriga a muitos. Sua finalidade não é a imponência, mas serviço humilde: “dar abrigo”.

A parábola continua a ser contata numa tentativa de combater outra tentação. Em Mt 13, 33-43 surge a idéia de O “fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha até que tudo fique bem fermentado”.

No evangelho de Mateus, Jesus rejeita veementemente o fermento dos ensinamentos dos fariseus e saduceus: “Estejam atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus que é a hipocrisia” (16,6). Este é o ensinamento do legalismo, da imagem, do formalismo, do status religioso, do tradicionalismo que geram fardos pesados e a falsa sensação de santidade.

“As três porções de fermento” faz crescer alegria diante da tentação do desânimo que os fardos pesados impõem na vida comunitária. O joio dos fariseus e saduceus, semeado na vida comunitária cristã, se tornou pesado, mas uma boa porção do fermento bom (assim como o vinho bom) sempre traz alegria e renovação para a vida em comunidade.

Os discípulos tem dificuldade de compreensão: “explica-nos a parábola do joio” (Mt 13, 36s). Jesus ensina tentando dizer-lhes que é preciso evitar as tentações de grandeza e superioridade na vida comunitária. Cada pessoa escolhe o que quer ser: trigo ou joio. Mesmo assim, a mensagem de Jesus vai se cumprir apesar da escolha do que queremos ser. 

É importante ao discípulo de Cristo não perder tempo com as modinhas religiosas, mas “buscar viver em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça” (Mt 6, 33). As leituras de hoje nos dão um bonito recado de que o Reino de Deus é uma semente que se mistura com todos e para todos. Os verdadeiros discípulos de Cristo não ficam se esquivando das realidades do mundo e sempre acusando o mundo de degeneração. Sempre foi uma ideia “equivocada” de que enquanto mais longe de todos, mas puros e santos seremos. Está a teologia dos fariseus, não a teologia do Reino.

Para muitos, a salvação é feita de isolamentos, de presunção narcisista, de um duro combate com seus bons desejos, achando que mergulhado no cumprimento de leis, vivendo de rituais e sacrifícios, já estão justificados diante de Deus. A mentalidade do Reino vai por outra via que ainda hoje as pessoas não entendem.

A bondade de Deus é para com todos. Deus não se fecha em grupos piedosos que vivem a se rotular como bons e os outros são maus. Todos necessitam da bondade de Deus e a semente do Reino de Deus ensina aquilo que dizia a primeira leitura: “ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano” (Sb 12 19).

A parábola alerta que a nós não compete o julgamento de ninguém, mas de sermos uma terra boa para nos tornarmos discípulos do Reino. Assim, como tudo se mistura (na parábola), assim se aprende que o Reino é feito de uma justiça que salva a todos e quer ver todos unidos.

O triunfalismo de igrejas cheias para subjugar e condenar a fragilidade dos outros (a mania de grandeza), não é a terra boa que o Reino espera. Jesus não admite uma igreja que não se envolve com os dramas humanos. Nossas comunidades devem existir com veemência no mundo com o desejo de levar as lições do Reino de Deus. Mas, para tanto, é preciso superar as tentações do fanatismo que é tão tóxico e causa um dano severo: vida amarga, pesada e insuportável. 

Que tipo de chão eu sou? Qual a semente o meu coração acolheu (joio ou trigo)? Sou um discípulo de Jesus ou mais um zeloso fanático que é pesado na vida comunitária? Sou discípulo do Reino de Jesus ou das modinhas devocionais de meu tempo?

Boa semana! E que a graça de Deus nos acompanhe.

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

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