PALAVRA DO SENHOR- A espiritualidade convoca o sujeito
A liturgia neste 21º Domingo
do Tempo Comum nos faz pensar nossa resposta, com a igreja, no caminho de fé
que o Senhor nos colocou.
Na
2ª Leitura (Rm 11, 33-36) Paulo exclama: Ó profundidade da
riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus
juízos!”. O apostolo reconhece que há uma dimensão em Deus que escapa
completamente à lógica humana. É o reconhecimento de uma alteridade radical que
ninguém abarca e controla. Assim, cai por terra toda tentativa neurótica de
controlar Deus com nossas vãs teologias e dogmatismos.
Nesta carta, o apostolo
Paulo tenta a todo o custo evangelizar os cristãos (vindos do judaísmo) com
aquela “velha tendência radical” de enquadrar Deus em leis, preceitos, regras
litúrgicas, moralismos, doutrinas, tradições, etc. O evangelho de Jesus Cristo
sempre será uma Boa Nova que dialoga com a vida, com seus sistemas e as
aspirações mais profundas do coração do ser humano. Evangelizar não é nem
enjaular Deus e nem o ser humano, pois AMBOS SÃO MISTÉRIOS E O SER HUMANO
COMPARTILHA DA MESMA IMAGEM E SEMELHANÇA DESSE GRANDE MISTÉIRO QUE É DEUS. E
essa tem sido a tentação das instituições religiosas de todos os tempos: querer
controlar Deus e projetar nele as nossas ações desumanas e perversas para que
Ele compactue com isso.
No
evangelho (Mt 16, 13-14) Jesus pergunta: “Quem dizem os homens
que eu sou?” (v.13). O povo transferiu
para Jesus as suas expectativas e fantasias do passado comparando-O com figuras
históricas que já morreram. Algumas pessoas não conseguem enxergar em Jesus a
sua originalidade. Muitas pessoas tem a mania de querer que o outro seja como ele
quer que seja ou como as conveniências determinam, negando ao outro a
alteridade, autonomia e história.
Jesus rompe o discurso
impessoal e convoca seus discípulos a uma resposta subjetiva: “E vós?” (v.15).
Jesus rompe com o discurso repetitivo das massas para que o discípulo que
convive com Ele, escutando sua Palavra e vendo suas ações, tenha uma
compreensão melhor sobre Ele e viva a autentica dinâmica do Reino.
A convivência com Jesus
supera o imaginário, o campo das imagens, do espelho das identificações (onde
reside o ego de cada um) para o mundo real. Não é por acaso que muitos homens e
mulheres de fé e de bom senso (teólogos, pastoralistas, biblistas, escritores,
exegetas, psicólogos) têm identificado imaturidade humana e de fé em muitas
pessoas que vivem processos fantasiosos de projeção e de objetificação de Deus.
Deus e os santos são
rebaixados à categoria de enfeites litúrgicos e devocionais num misticismo
vazio, fundamentalista e cheio de oportunismo capitalista. As pessoas estão
aprisionadas num circuito de espelho, pois só aceitam aquilo que afaga o seu
próprio interesse devocional. Muitos não conseguem mais ver no outro a imagem e
semelhança de Deus, mas acham que Deus atua apenas nas medalhinhas milagrosas (assim,
abençoamos coisas e amaldiçoamos pessoas).
“Quem dizeis que eu sou?” (v.15).
Jesus faz esse corte ideológico e lança essa pergunta. Ele desmonta os velhos
discursos do “ouvi dizer” e leva a questão para algo maior: “não foi carne e
nem sangue que te falou, mas o meu Pai que está nos céus” (v.17). Essa resposta
vem do alto, de um saber que não é fruto dos grupos fechados. É o próprio
Espírito de Deus que nos dá o bom discernimento sobre Deus. Na região de
Cesareia de Filipe, a Igreja nascente aprende que ela não atua pelo viés estrito
da lei, mas do Espírito.
“Sobre ti edificarei a minha
igreja” (cf. v.18). A escolha de Pedro, como também a nossa, não é por acaso.
Pedro é retirado daquele moralismo judaico, como Paulo também, para ocupar um
lugar simbólico de representar o verdadeiro Deus (chaves da Igreja). Mas a
nenhum foi dado o poder de aprisionar Deus em seus conceitos: “fomos resgatados
das coisas fúteis” (1Pe 1,18) e nem tratar mal os outros (contexto da 1ª
leitura).
A liturgia de hoje nos faz
pensar o quanto o ser humano tende a se esconder atrás do “que os outros
dizem”. Talvez seja por isso que gostamos tanto do “disse me disse”, “de ouvir
julgamentos e acusações”, mas o Reino de Deus é feito de alteridade. Gostamos
de viver imitado o desejo dos outros. As redes sociais potencializaram isso
demais. Gozamos no imaginário das fantasias burguesas e narcísicas dos outros e
vamos perdendo a nossa originalidade.
Tenho dedicado, nestes dias,
a leitura espiritual da história de um santo jovem chamado Pier Giorgio
Frassati. Um jovem que tinha o mistério da santidade escondido no cotidiano.
O jovem santo Pier Giorge
Frassati dizia que um jovem católico não pode simplesmente existir “levando a
vida”, mas que precisava viver. Frassati era um jovem que ouviu em seu coração
esta pergunta que Jesus também lhe fez: “quem eu sou para você?”. Ele respondeu
com a vida.
Pier Giorgio era um
universitário, gostava de festas, apreciava uma boa cerveja, tinha bons amigos,
gostava de teatro, esportes enfrentou ativamente o fascismo na Itália durante o
regime de Benito Mussolini, usando sua fé para defender os trabalhadores da
tirania. Mas não era escravo de nada, nem das aparências (não seguia muito as
modas de seu tempo). Na originalidade de sua fé ele dizia: “Jesus visita-me
todos os dias na Eucaristia e eu retribuo visitando os pobres”. Ele não vive
uma fé de conveniência e nem em bolhas sociais, como muito jovens de seu tempo.
Ele sabe que a vida é muito maior que isso. Seu lema de vida era “verso l´alto
(para o alto). O que isso quer dizer? Significa quebrar os circuitos fechados
dos espelhos narcísicos e as conveniências de grupos, para abrir-se a Deus e a
todos. Frassati gostava de subir montanhas físicas, mas na verdade estava
voltado para as coisas do alto onde escutava melhor a Cristo. Frassati morre
aos 24 anos, vitima de uma poliomielite que ele pegou cuidado dos doentes nos
bairros mais pobres de Turim (Itália). Humanamente isso é trágico, mas é sinal
de entrega por amor.
Seguir Jesus requer sair dos
cativeiros das imagens para assumir o real de nossas vidas. Todo o ser humano
tem desejo de originalidade, de liberdade, de amor e de vida. A comunidade
cristã em seus conceitos, filosofias, teologias e espiritualidade não pode
correr o risco de enquadrar Deus e o ser humano. Você está vivendo bem ou
mantendo um feed no instagram?
Boa semana!
Edjamir
Silva Souza
Padre e psicólogo


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