Grupo de Vorcaro tinha informações do MPF, da PF e até da Interpol
Detalhamento faz parte de inquérito divulgado pelo STF
O grupo ligado ao então banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do
Banco Master, tinha acesso a informações sobre investigações contra ele no
Ministério Público Federal (MPF), em sistema de acesso exclusivo a policiais
federais e até da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol),
integrada por 196 países.
A revelação faz parte de um relatório da Polícia Federal
(PF), datado de 27 de fevereiro deste ano, enviado ao ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero, que
investiga fraudes bilionárias envolvendo o Master e Vorcaro.
O sigilo da investigação foi levantado após pedido do
presidente do STF, ministro Edson Fachin.
A PF aponta um grupo chamado de “A Turma”, que seria uma
estrutura paralela de vigilância, milícia e coerção privada mantida por
Vorcaro. Um dos integrantes era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, tratado
no documento como "Felipe Mourão" e "Sicário".
Acesso clandestino
De acordo com o documento que chegou às mãos de Mendonça,
Daniel Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês para manter a “Turma”.
Os investigadores apontam que Sicário foi contratado para
realizar acesso “recorrente e irregular a procedimentos sigilosos em andamento
no MPF, na PF, na Polícia Civil e no Banco Central”.
No documento de 164 páginas, que inclui reproduções (prints)
de conversas de WhatsApp entre os envolvidos, incluindo funcionários públicos,
a PF explica que o acesso clandestino se dava por meio da “utilização de logins
funcionais de terceiros”.
A estrutura paralela atuava também na extração indevida de
documentos e em consultas realizadas sem autorização em sistemas internos das
instituições.
“O conteúdo indica, de forma clara, o uso indevido de
informações protegidas por sigilo, que eram obtidas e empregadas para a
proteção da organização criminosa”, frisa a PF.
O relatório mostra, por exemplo, que em 15 de fevereiro de
2024, Vorcaro reencaminhou a Sicário uma mensagem perguntando sobre um
determinado inquérito policial dentro da PF.
Atenção especial para Vorcaro
Quarenta minutos depois, Felipe Mourão responde com um áudio
do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Na gravação, Marilson
diz que “já havia feito contato com a ‘Tropa’ e que dariam uma atenção especial
ao pedido de Daniel Vorcaro”.
O relatório acrescenta que Marilson tinha “acesso ilícito aos
sistemas do MPF”. A Compliance Zero começou no início de 2024, a pedido do MPF.
Marilson foi preso no dia 4 de março pela 3ª fase da
operação, em Belo Horizonte.
No comunicado enviado a Mendonça, a PF afirma que “diante da
gravidade de tal acesso”, realizou uma auditoria interna e identificou que o
acesso indevido partiu da Delegacia da Polícia em Juiz de Fora (MG).
Busca por “BRB AND MASTER”
Os investigadores descrevem que Sicário enviou pelo
aplicativo de mensagens comprovantes de consultas realizadas nos sistemas do
MPF. A busca foi feita referente ao CPF de Vorcaro. Foram identificados 15
procedimentos relacionados ao banqueiro, sendo 11 sigilosos.
As buscas eram feitas também com os termos “BRB AND MASTER”,
para identificar todos os procedimentos em que ambos os termos apareciam.
BRB é o Banco de Brasília, investigado pela compra de títulos
financeiros fraudulentos do Master.
A pessoa que retorna a conversa com Sicário mostra interesse
em manter discreto internamente o trabalho de busca.
“Veja com ele se ele quer que entremos em todos os processos
sobre o BRB + Master. São muitos. Eu entrei no primeiro, mas são muitos e às
vezes pode chamar atenção”, mostra o print.
Vorcaro: “Quero tudo”
“Quero tudo. Atenção total”, responde o banqueiro. Sicário
replica: “Então vou mandar puxar geral”.
A PF diz que o servidor que efetuou a consulta tentou ocultar
a identificação, hachurando (apagando) o nome dele e o setor.
“Essa circunstância indica a intenção deliberada do servidor
de ocultar sua identidade, possivelmente por ter ciência da irregularidade
envolvida no compartilhamento de documento sigiloso”, escreve a PF a Mendonça.
No dia seguinte, por exemplo, Sicário enviou para Vorcaro uma
“Notícia de Fato” do MPF, na qual consta a orientação para apurar se havia
crime contra o sistema financeiro nacional na tentativa de compra do Master
pelo BRB.
A PF destaca no relatório que o documento tinha “natureza
reservada”, o que apontava para “indícios de possível obtenção indevida” por
Mourão.
“Daniel Vorcaro estava se utilizando de acessos ilícitos para
obter informações sigilosas sobre a presente investigação”, sinalizam os quatro
delegados federais que assinam o relatório.
“Nesse sentido, após realizar pesquisas de forma clandestina
em bancos de dados do Ministério Público Federal, as pesquisas passaram a se
concentrar nos bancos de dados da Polícia Federal”, descrevem.
Os delegados utilizam um print de 15 de setembro de 2025 para
evidenciar que a “Turma” tinha acesso ao ePol, Sistema Oficial de Polícia
Judiciária da Polícia Federal, de acesso exclusivo a policiais federais.
O documento foi enviado a Sicário por Marilson Roseno da
Silva. Na mensagem, ele reitera a cobrança do pagamento mensal ao grupo
clandestino.
Interpol e FBI
A PF relata que o nível de sofisticação e de intrusão em
órgãos policiais alcançado pela “Turma” é tão relevante que “as evidências
mencionam, até mesmo, o acesso a organismos internacionais, como o FBI e a
Interpol”.
O FBI (Agência Federal de Investigação, na sigla em inglês),
equivale à polícia federal dos Estados Unidos.
A PF descreve que, em 24 de outubro de 2025, Felipe Mourão
reencaminha um print de tela com o logotipo da Interpol e mensagens com as
seguintes frases:
- “O que está em branco foi para ocultar o nome de quem fez a
pesquisa”
- “Estamos aguardando o relatório principal do FBI”
- “A Interpol está limpa”
A PF informa no relatório ao STF que consultou a Interpol
aqui no Brasil e obteve a resposta de que a identidade visual da tela
reproduzida na mensagem não corresponde a mecanismos de busca disponibilizados
pela Interpol.
No entanto, a organização internacional ressaltou que pode se
tratar de mecanismos de buscas de outros países.
A PF levanta a hipótese de que a consulta tenha sido feita
por meio de sistema de algum país com base em dados baixados da Interpol,
“podendo-se inferir, de qualquer forma, que não se trata de usuário
brasileiro”.
Os delegados apontam que Vorcaro poderia ter utilizado um
aparato jurídico para, pelas vias legais, ter acesso aos autos da investigação
contra ele.
“Contudo optou pelo caminho ilícito, já que dispõe de uma
espécie de milícia pessoal, chefiada por seu ‘Sicário’ Felipe Mourão, a qual
conta com a participação proeminente do policial federal aposentado Marilson
Roseno”.
Caso Master
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em 18 de
novembro de 2025. De acordo com o BC, instituição estatal responsável por
manter a saúde do sistema financeiro do país, os motivos foram “grave crise de
liquidez e comprometimento significativo” da sua situação econômico-financeira,
assim como “graves violações às normas”.
Durante tentativas de salvar o Master, houve envolvimento do
BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal. As perdas em negócios do BRB
com o Master deixaram o banco público em situação crítica, precisando de R$ 8,8
bilhões.
O Banco Central barrou a venda do Banco Master ao BRB. No
entanto, o relatório da PF aponta “relacionamento ilícito” entre Vorcaro e dois
diretores do BC.
Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e depois em
março de 2026, por ordem do STF, situação que segue mantida.
Sicário também foi preso, mas morreu dois dias depois, após
tentativa de suicídio na prisão.
Além da espionagem, Vorcaro contava com Sicário para
“serviços”, como realização de atos de violência, coação e intimidação, “com
menções ao planejamento e possível execução de agressões físicas”, o que
incluía mobilização de pessoas armadas. O objetivo era, detalha a PF,
“pressionar e silenciar determinadas pessoas”.
Agência Brasil


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