PALAVRA DO SENHOR – A mística do Reino e a liturgia da rua: “vejo uma multidão”
A liturgia da Palavra na Solenidade de Todos os Santos coloca
diante dos nossos olhos uma imagem impressionante: “uma multidão que ninguém
podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7, 9). Deus deu
a graça do apostolo João ver isso...
E o que os uniu? A princípio, o Cordeiro de Deus. Mas, por um
instante, imaginemos uma multidão com rostos cheios de fé e esperança viva, com
palmas nas mãos cantando cânticos de liberdade, de esperança, de paz e de
justiça. Eram jovens, crianças e idosas que cantavam o cântico da vitória
contra a besta (Ap 15, 2-3).
O que os uniu? Olhando pelo viés da psicanálise, podemos
entender que estão movidos pelo desejo. Na Psicologia das Massas, Freud dizia
que as pessoas buscam um ponto comum e uma identificação que organize o caos
interno (mas também externo). Muitas vezes, as massas se movem pelo ódio
(transferindo para um líder autoritário a ilusão e a força neurótica de esmagar
as diferenças e controlar a todos). Porém, a psicologia do Evangelho faz outro
caminho pulsional que os só os pequeninos entendem.
A multidão do Apocalipse (Igreja triunfante) e a multidão do
texto do Evangelho é a mesma que não busca o gozo da destruição de ninguém, mas
a reparação das injustiças que o povo enfrenta (Igreja Peregrina): “os pobres,
os mansos, os que choram, os misericordiosos, os aflitos, os que têm fome e
sede de justiça”
A Igreja Peregrina (multidão nas ruas) compreende também que
espiritualidade é uma forma de reparação dos traumas (questões) históricos
(pecado histórico). Os peregrinos neste mundo buscam uma cura coletiva contra
toda a espécie de violência e desemparo. Entre o céu a terra há a celebração de
um povo que recusou o mal e escolheu a bondade, a fraternidade, a inclusão, a
paz. É a civilização do amor.
Santo Agostinho ao escrever “A Cidade de Deus” ele definia o
povo não como um amontoado de indivíduos, mas pessoas racionais associadas a um
projeto e uma causa. Ele intui nesta obra que para saber a qualidade de um
povo, basta ver o que este povo tanto ama.
A construção da “Civilização do Amor” é um projeto de
santidade. Quando os santos amam a justiça, eles inauguram um “novo céu e uma
nova terra”. Como não se lembrar de Santa Irmã Dulce que transformou um espaço
de um galinheiro em um hospital. São João Crisóstomo, na sua homilia sobre o
Evangelho de Mateus, fazia duras críticas que atravessou séculos: “Queres
honrar o corpo de Cristo? Não desprezes quando O vês nu num pobre, nem honres
aqui no templo com tecido de seda, enquanto do lado de fora deixas morrer de
frio e nudez”.
Os profetas sempre exortaram que ninguém pode usar o nome de
Deus para justificar a exclusão (Isaías 1, 16-17. 56, 3-7), o armamento (Is 2,
4), o preconceito (Is 19, 24-25). O profetismo bíblico nos lembra de Amós e
Isaías que denunciaram os cultos vazios daqueles que vendiam o necessitado o um
par de sandálias. O papa Francisco na exortação Gaudium et Exultate (sobre o
chamado à santidade) afirma que o protocolo pelo qual seremos julgados está
determinado em Mateus 25. O papa Francisco ainda dizia que os cristãos não
vivem uma “santidade de vitrine”, mas a “santidade da porta ao lado”.
Celebrar Todos os Santos é entender que a “multidão do Céu”
tem um vínculo estreito com a “multidão da Terra”. Ambas cantam a vitória sobre
a morte. Celebrar essa mística do Reino é compreender que o nosso louvor
acontece quando o povo gasta a sola dos sapatos na liturgia sagrada das ruas.
A visão beatifica não é uma fuga da realidade, mas um ato de
resistência ao mal que nunca prevalecerá. Jesus disse “Eu vim trazer fogo ao
mundo” (Lc 12, 49), pois bem, o fogo do amor é o combustível de nossa
resistência terrena.
É impossível olhar para este texto e não recordar que, em
contextos diferentes, multidões já foram (e vão) às ruas imbuídas de esperança,
corpos que cantavam (cantam) antigas e novas canções de vida e liberdade.
“Viver sem uma fé, sem sustentar a Verdade numa luta
continua, não é viver, mas fingir que se vive” (São Pier Giogio Frassati).
Ensinemos aos jovens e as crianças que não existe seguimento a Jesus sem a luta
pelo bem comum. A utopia do bem comum derruba sempre os condomínios da tirania,
intransigência, da presunção e arrogância. A história pertence a Deus e não aos
tiranos. A marcha da vida continua com pessoas que saibam sonhar. CORAGEM!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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