PALAVRA DO SENHOR – Pai, afasta de mim este CALA-TE!
A Liturgia deste 30º Domingo
do Tempo Comum (A) nos coloca dentro do coração do evangelho: o amor como
totalidade da lei. Aqui está a espinha dorsal do cristianismo.
Na 1ª leitura (Ex 22, 20-26)
Deus exige justiça e proteção para os mais vulneráveis e cita alguns: o
estrangeiro, o órfão, viúva e o pobre. Essa é a identidade de Deus: defensor
dos sem defesa.
O povo usa a própria memória
histórica como imperativo moral para ter empatia. Eles não são negacionistas.
Deus é apresentado como Aquele que escuta o clamor dos indefesos e para eles
exercerá a sua justiça. Deus se apresenta assim: “eu sou misericórdia” (v. 26).
Nas bem aventuranças, Jesus diz: “Bem aventurados os misericordiosos, pois
alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), isto
é, o povo é chamado a ser misericordioso como Deus é. E este é um sinal do
discipulado e de pertencimento.
Em nossos dias, é visível o
cisma entre a experiência de fé e a justiça social. O código da Aliança deixa
claro que é impossível estar em comunhão com Deus enquanto se oprime o irmão.
Estamos tão armados que falar de igualdade social e dos pobres, tornou-se um
tabu. Basta dizer que devemos anunciar o amor que alguém já levanta a voz
contra o padre, inventa uma denúncia contra ele, a igreja em sua fragilidade,
medo e incoerência instaura um tribunal para calar o sacerdote. PAI, AFASTA DE
MIM ESTE CALA-TE.
As pessoas estão
esquecendo-se do amor misericordioso de Deus e criando um novo senso religioso
baseado no interesse mesquinho e gerando pessoas indiferentes na indiferença. É
preciso acordar as pessoas e dize-las que a justiça social é o termômetro para
saber se a igreja esta vivendo o evangelho.
Na 2ª leitura (1 Ts 1,
5c-10) Paulo faz um elogio à comunidade de tessalonicenses que encarnou essa
justiça na forma de viver: “apesar das tribulações”. Eles se converteram dos
ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. Para amar ao Deus do Evangelho
com o coração inteiro, é necessário abandonar os deus falsos que tornam as
pessoas insensíveis: “Tem olhos e não podem ver, tem boca e não pode falar, tem
ouvidos e não podem ouvir” (cf. Salmo 115 e Salmo 135).
A leitura também é uma
exortação para os dias de hoje aos que adoraram mitos desumanos e as
comunidades que caíram na indiferença institucionalizada. As pessoas acabam se
tornando semelhantes à eles. O Deus Vivo vê a opressão do povo (como viu no
Egito) ouve o clamor do povo e fala através dos santos e profetas.
São Joao Crisostomo alertava
que adornar a mesa do altar com cálices de ouro enquanto Cristo morre de frio e
fome na pessoa do pobre (fora das portas da Igreja) é uma profanação ao
sacramento.
“Pai, afasta de mim este
cálice”, cantava Chico Buarte e Gilberto Gil em plena ditadura. Na liturgia da
vida este cálice é sempre a dor amarga da opressão colonialista que pisam os mais
vulneráveis.
Assim como nas primeiras
comunidades cristãs (cf. Atos dos Apóstolos) as Conferências Episcopais
Latino-Americana formularam uma identidade de Igreja, a partir da própria
identidade de Deus e se identificou com a “opção preferencial pelos pobres”
(cf. Medellín (1968)/ Puebla (1979) / Aparecida 2007)). O mandamento do amor
imprime o primado da caridade evangélica: garantir a dignidade inviolável da
vida humana contra qualquer situação de opressão e miséria.
Também nós, devemos fazer
nossa memória histórica para não perder de vista, como na primeira leitura, a
formação de nosso povo. Em 1850 a “lei da terra” determinou que para ter terra,
só comprando, mas o escravo não comprou, pois não tinham recursos. O governou
pagou o navio do imigrante europeu; deu terra, enxada e semente, mas para o
povo preto, o que é que deu?
Em 1888, a Lei Aurea da
Libertação, dois artigos e mais nada, mais 700 mil negros sem um palmo de chão.
As danças, a cultura e a expressão de vida dos negros (a vida livre, artística
e de fé) foi logo considerada como crime e objeto de maldição que era para os
negros e escravos se sentirem mal na decisão de sair das senzalas. Até os anos
70, na Bahia, para um negro abrir um terreiro, tinha que pedir permissão, de um
policial, para existir e rezar.
A primeira leitura (que nos
lembra a justiça social como o critério da Aliança) nos faz pensar, a partir da
ação amorosa do Criador, e reconhecer a importância dos programas sociais
desenvolvidos nestes últimos decênios
como suporto no desenvolvimento de uma nação que tem déficit histórico
com seu próprio povo. Mas, é humilhante escutar de muitos críticos
negacionistas reclamando dos auxílios, e não se dão conta de que o problema
maior desta querida nação vem das elites que desviam o dinheiro que deveria ser
de investimento para o desenvolvimento do povo, muitos enriquecem ilicitamente
(as oligarquias) .
Quem pensa a sociedade a
partir da lógica do amor, verá seu povo sair da miséria. Mas, este tem que amar
o povo, tem que ser alguém provado no fogo e não um inconsequente. Este saberá
o valor que tem a dignidade de cada pessoa: direitos iguais, incentivo para
estudar, investimento para microempresas, recursos para dar de comer a
população, respeitar as diferenças e tratar todos como irmãos de uma mesma
pátria chamada “Mãe gentil”.
Mas, assim como ontem, hoje
vemos a Casa Grande (de terno) tentando derrubar as muitas conquistas sociais
(uma reparação histórica). O povo quilombola foi pesado em arroba, por
autoridades, como se pesa um boi; mas, na verdade, foram os filhos dos
fazendeiros que durante a época da ditadura tiveram cotadas chamadas de a “Lei
do boi”.
Esquecendo a história de
ontem e de hoje, muitos dizem que as cotas que ajudam o povo, dividem a nação;
mas, na verdade, o Brasil sempre esteve divido, pois a gente sempre sabe para
quem sobra o camburão, a bala tem já endereço certo (os negros). Como diz o
ditado “o pau sempre quebra nas costas do mais fracos”. Nos escandalizamos
quando um ladrão de celular e solto da prisão, mas nunca nos escandalizamos
quando “um representante do povo” desvia recursos que deveriam servir aos
aposentados e vai gastar em festinhas... Somos seletivos até nisso.
A lei Áurea do Amor e da
Misericórdia é reparação. Na justiça do Reino de Deus, “até as prostitutas
entram primeiro”, “os negros tem privilégios como os brancos”, “os pobres são
tratados como bem aventurados”, etc. Mas, e você, como se se coloca no mundo?
És portador da justiça do Reino de Deus?
Irmãos e irmãs, diante do
altar onde o Amor vai se fazer pão e vinho, não podemos fechar os olhos ao
altar da vida, onde o mesmo Cristo continua sendo crucificado na carne dos
vulneráveis. Cuidado com o teu desprezo para com aqueles que Deus ama. Hoje,
nosso grito não é apenas uma petição, mas um exame de consciência à luz da
Aliança de Deus. Diante de uma fé cega, surda, muda, rezemos: “Pai, afasta de
nós este cálice da cumplicidade com estrutura que produz descaso. Pai, afasta
de nós esse cálice de devoções vazias e sem caridade. Livra-nos da heresia de te
amar sem amar o próximo. Pai, afasta de nós o cálice do vinho de sangue da
indiferença e cinismo. Ensina-nos a fazer da eucaristia uma celebração do
amor”. Amém!
Coragem!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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