'Fiquei em choque quando descobri': africana que deu à luz a quadrigêmeos em João Pessoa relata surpresa com gravidez e rotina após o parto
Fataumata Oumou Baradfi,
natural do Mali, deu à luz quadrigêmeos no Instituto Cândida Vargas, em João
Pessoa. Ela viajou ao Brasil para receber assistência médica.
A descoberta de que esperava
quatro bebês ao mesmo tempo foi uma surpresa inesperada para Fataumata Oumou
Baradfi, de 30 anos. Natural do Mali, na África, ela precisou se adaptar à
ideia de uma família que cresceria de uma só vez. Durante a gestação, veio à
Paraíba em busca de atendimento médico e, agora, acompanha os quadrigêmedos no
Instituto Cândida Vargas (ICV), em João Pessoa, onde os recém-nascidos recebem
cuidados.
O g1 conversou com Fataumata
sobre a reação ao descobrir a gravidez, a decisão de vir ao Brasil e os
primeiros dias com os quadrigêmeos. A entrevista foi realizada em francês,
idioma falado por ela, e traduzida para o português pela reportagem.
“Foi uma grande surpresa.
Fiquei em choque quando descobri, chocada, mas também estava contente. Depois,
fiquei muito feliz, como não é a minha primeira vez, já sei como cuidar de
crianças, então para mim está sendo muito bom”, contou Fataumata.
Os quadrigêmeos nasceram em
14 de outubro. Segundo a unidade de saúde, a gestação exigiu a mobilização de
uma equipe com 9 médicos, 6 enfermeiros e 6 técnicos de enfermagem, além da
reserva de leitos para a mãe e os recém-nascidos.
Mãe decidiu vir ao Brasil em
busca de atendimento médico
Fataumata chegou ao Brasil
em 5 de setembro, com 28 semanas de gestação (ou aproximadamente 7 meses), e
ficou na casa da prima Mamacila Baradfi, no bairro de Jaguaribe, em João
Pessoa.
A decisão de viajar foi
tomada diante da preocupação com a gestação de quadrigêmeos. Mamacila, que
nasceu na Costa do Marfim, mora na capital paraibana há quase dois anos e
contou que recebeu uma ligação da prima dizendo que esperava quatro bebês, em
tom de muita preocupação.
“Ela estava grávida de
quatro bebês e morava no Mali. Ficou preocupada com a gestação e me ligou para
contar que estava esperando quadrigêmeos. Ela estava muito surpresa, mas foi um
pouco difícil para ela. Conversei com meu marido sobre a situação e ela veio
para o Brasil porque, no Mali, não há um bom sistema de saúde”, relatou
Mamacila.
Segundo Antônio José dos
Santos, amigo da família e médico obstetra, a decisão de vir a João Pessoa
buscou ampliar as possibilidades de assistência diante de uma gestação de alto
risco.
“Fatoumata faz parte da
família Baradfi. São clãs muito unidos. São famílias antigas, com gerações e
gerações na Costa do Marfim e no Mali, e agora também no Brasil. Eles mantêm
vínculos muito fortes com suas tradições, embora existam algumas adaptações por
terem vindo para o Ocidente, onde as coisas são um pouco diferentes. A família
decidiu que ela viesse para o Brasil, as chances de um bom resultado seriam
maiores. As crianças estão recebendo um atendimento excelente e evoluindo muito
bem. Sem essa estrutura e essa quantidade de recursos, provavelmente a evolução
não teria sido tão boa”, afirmou.
O marido de Fataumata também
veio ao Brasil, ajudou a organizar a estadia da família e depois voltou ao Mali
para trabalhar e manter o sustento da casa. Segundo Antônio, o contato entre
eles continua por telefone e pela internet.
Fataumata ainda contou ao g1
que não teve problemas de saúde durante a gravidez, embora o peso da barriga
tenha dificultado a rotina. Ela também planeja voltar ao Mali e reorganizar o
dia a dia para cuidar dos seis filhos.
“Decidimos vir ao Brasil
para buscar melhores cuidados, ter mais saúde e prosperidade. A gravidez não
foi tão difícil. Apenas a barriga que estava pesada, mas correu tudo bem e não
tive nenhum problema de saúde. Na África, vamos tentar nos habituar e
reorganizar a nossa rotina diária. Vamos ter uma assistência para organizar
como será o nosso dia a dia a partir de agora”, contou.
‘Na religião muçulmana, há o
costume de ter muitos filhos’, diz prima
Fataumata e Mamacila são
muçulmanas. A prima explicou que, para a família, ter filhos é importante e que
a chegada dos quadrigêmeos tem um significado ligado à fé religiosa.
“Nós somos muçulmanas. Ela
se casou há muito tempo e, até então, tinha apenas dois filhos. Na religião
muçulmana, há o costume de ter muitos filhos. Ela já tinha duas crianças e,
depois de cinco anos, as pessoas poderiam perguntar por que ela não queria ter
outro filho ou engravidar novamente. Mas, para nós, ter filhos é algo
importante", afirmou Mamacila.
Os quadrigêmeos receberam os
nomes Cheick Hamala Baradfi, Aboubakar Baradfi, Ibrahim Baradfi e Marietou
Yasmina Baradfi. São três meninos e uma menina.
“Eu escolhi dois nomes,
sendo o da minha mãe e o do meu pai. Meu marido também escolheu dois nomes do
lado dele, com o nome do pai dele. No final, são três meninos e uma menina”,
explicou.
Antes do nascimento dos
quadrigêmeos, Fataumata já tinha dois filhos: um menino de 11 anos e uma menina
de cinco. As crianças permaneceram no Mali com o pai, que trabalha como
comerciante.
Quadrigêmeos recebem
cuidados para ganhar peso
Os quadrigêmos nasceram
prematuros e pesam entre 1,3 kg e 1,5 kg. Após passarem por cuidados intensivos
e intermediários, os quatro bebês foram encaminhados ao setor 'Método Canguru',
no ICV, onde recebem acompanhamento para ganhar peso e avançar na alimentação.
🔎O Método Canguru é uma estratégia de
assistência que estimula o contato pele a pele entre o bebê e a mãe ou outro
familiar autorizado. A prática favorece o vínculo afetivo, ajuda a manter a
temperatura corporal e contribui para o desenvolvimento dos recém-nascidos.
A enfermeira Morgana Morais,
que monitora a rotina dos recém-nascidos no setor, explicou que a equipe
acompanha a alimentação, o ganho de peso e os cuidados diários dos bebês.
"Os bebês ficaram aos
cuidados das equipes e, à medida que foram melhorando, foram encaminhados para
o setor Canguru, onde são acompanhados para o ganho de peso. Nesse setor, temos
um acompanhamento mais próximo para avaliar a alimentação e os cuidados diários.
O contato com a mãe faz toda a diferença nesse momento”, destacou a enfermeira.
Segundo Michelly Honório,
enfermeira coordenadora do setor do Método Canguru, uma das estratégias
adotadas pela equipe é organizar o contato pele a pele de dois bebês por vez. A
medida permite que Fataumata tenha esse momento com cada filho sem ficar
sobrecarregada durante os cuidados com os quatro recém-nascidos.
"Muitas vezes a gente
acha mais viável que ela faça esse método Canguru de dois em dois bebês.
Enquanto dois estão dormindo, ela fica com dois bebezinhos no Canguru. Fica
mais ou menos uma hora com os bebês. E depois a gente faz a troca, faz a
permuta dos bebês”, explicou Michelly.
Os quadrigêmeos também estão
aprendendo a sugar o leite. Enquanto desenvolvem essa habilidade, recebem
alimentação por sonda, com leite materno e leite humano pasteurizado. São
oferecidos 25 ml a cada três horas, divididos em duas etapas para reduzir o
risco de regurgitação. O Banco de Leite Humano participa do acompanhamento
nutricional.
A médica Camila Medeiros,
responsável pelo parto, informou que Fataumata recebe acompanhamento diário e
que a equipe de neonatologia monitora a evolução clínica e o ganho de peso dos
quatro bebês.
“A paciente encontra-se bem
e segue acompanhada em nossa enfermaria do Método Canguru, junto aos seus
quatro bebês. A mãe recebe visita médica obstétrica diariamente, em um
acompanhamento integrado com a equipe de neonatologia, que monitora a evolução
clínica e o ganho de peso dos pequenos, preparando-os para, no momento
oportuno, receberem alta hospitalar com segurança”, explicou.
Segundo a equipe, ainda não
há previsão de alta hospitalar. A liberação depende da evolução clínica dos
recém-nascidos e da avaliação das equipes responsáveis pelo acompanhamento.
Além dos cuidados médicos, a
família precisa de ajuda para atender às necessidades diárias dos quatro bebês.
Os recém-nascidos usam, em média, 36 fraldas por dia, e a família pede doações
de fraldas e roupas para as crianças, que podem ser entregues no setor de
Assistência Social do Instituto Cândida Vargas, em João Pessoa.
Primeiro parto de
quadrigêmeos da história do ICV
O nascimento dos quatro
bebês foi o primeiro parto de quadrigêmeos realizado na história do Instituto
Cândida Vargas (ICV), em João Pessoa. A gestação exigiu a organização de uma
equipe multidisciplinar para atender à mãe e aos quatro recém-nascidos
prematuros.
Segundo a unidade de saúde,
Fatamauta chegou à unidade com registros limitados do acompanhamento pré-natal
e recebeu o primeiro atendimento no local em 8 de setembro, quando passou a
contar com assistência pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Por Janinne Vivian, g1 PB



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