PALAVRA DO SENHOR – A surdez da alma e o vazio das vasilhas
Ao longo dos últimos meses
Jesus nos apresentou o Reino em etapas: através das parábolas da semente, do
fermento, e do tesouro escondido (realidade discreta); depois, começou a exigir
a prática da justiça, do perdão e do despojamento. Neste 32º Domingo do Tempo
Comum a pedagogia de Cristo muda, pois Ele não diz como o Reino começa, mas
como termina.
“O Reino dos Céus é como”
(Mt 25,1). Falar por meio de parábolas é uma forma de comunicar-se para aqueles
que querem “ouvir”, “entender” e “compreender”. Quem tem o hábito de ouvir
Jesus sabe que as parábolas não eram uma simples história, mas algo que Ele
queria comunicar. Contudo, muitos se fecharam a uma das piores patologias
espirituais: a obstinação da surdez. Ouviram, mas não escutaram. Foi-lhes dado,
mas só receberam o que lhes convinham. Fecharam-se à Palavra e provocaram o
Senhor que lhes fez uma advertência escatológica: “quem tem ouvidos para ouvir,
que ouça” (Mt 13,9).
O cenário da parábola é
marcado pela escuridão, pela misteriosa demora do Esposo, mas pela sua espera.
Todos sabem que Ele voltará e todos conversam sobre Ele.
Jesus é aquele que opera uma
divisão entre duas posturas espirituais face à vinda do Reino: cinco jovens
prudentes e cinco jovens imprudentes (Mt 25,2). Todas possuíam lâmpadas, todas
sofreram o peso do cansaço, dormiram (v. 5); contudo, a diferença estava na
ausência ou não de uma reserva essencial: o óleo nas vasilhas (v. 4).
Santo Agostinho debruçou-se
sobre esta parábola e disse que “O óleo é o símbolo da caridade; é o amor que
brota de um coração puro e de uma consciência reta” (Sermão 93). Ele esclarece
que a lâmpada acesa é a profissão de fé, as obras visíveis que todos podem
contemplar. A vasilha com óleo é a secreta vida interior da alma, onde os
cristãos não vivem para as glórias dos homens, mas sob o olhar de Deus. As
jovens imprevidentes tinham lâmpadas brilhantes, mas estavam vazias, tinham
muita estética da fé, mas careciam da ascese e da densidade do amor verdadeiro.
Quando a voz do Reino grita (à meia-noite) a superficialidade delas se
desmoronam.
“Dai-nos um pouco de óleo,
porque as nossas lâmpadas estão se apagando” (Mt 25, 8). São João Crisóstomo
advertiu que “ninguém pode comprar a salvação na hora do juízo final através
dos méritos alheios. O óleo é a justiça e a misericórdia que cada um deve
cultivar em sua própria vida. No dia do encontro com o Esposo, a virtude de um
homem não poderá cobrir a nudez espiritual do outro”.
Diante do tribunal de
Cristo, cada alma se apresenta com o peso especifico do amor que acumulou ou
dissipou ao longo de sua jornada terrena. O provérbio popular nos ensina que
não podemos adiar o que se pode fazer hoje. Há pessoas que gostam de
procrastinar decisões na vida e deixam para amanhã o que pode ser feito hoje.
No Livro dos Provérbios se diz: “Não digas ao teu próximo: ‘vai e volta amanhã,
e eu to darei’, se o tens contigo agora” (3, 28).
“A porta se fechou” (Mt 25,
10), uma conclusão sóbria e terrível para quem não estava com óleo da caridade.
Ouve-se um clamor “Senhor, abre-nos a porta” (v. 11). Em seguida, a resposta
mais dramática de toda a teologia evangélica: “não vos conheço” (v. 12).
“Ficar vigiando, pois não
sabeis qual será o dia, nem a hora” (v 13). A vigilância evangélica tem um
significado absoluto na exortação de “ficar com o coração abastecido”. A escuta
ativa e a meditação da Palavra de Deus, a vida de oração e sacramental, a vida
da santa prudência e o serviço da caridade deixam a lâmpada acesa nas noites
escuras e incertas da vida.
Vigiar é não ficar
procrastinando decisões sérias, não cair no relativismo com as coisas
essenciais da fé, não adiar a nossa conversão ao evangelho da misericórdia,
pois a porta que se abre pela chave do amor, também se fechará pela justiça:
“Eu tive fome e não me deste de comer” (v. 42).
São Carlos Acutis, apóstolo
da internet, ensinava que a vigilância consiste em não desperdiçar o tempo que
é dado por Deus: “Estou feliz em morrer, porque vivi minha vida sem perder nem
mesmo um minuto dela com coisas que Deus não gosta”.
A vigilância evangélica exige
que descarreguemos o peso do nosso egoísmo para que a alma possa elevar-se. Não
adiante clamar para o Senhor abrir a porta à meia-noite, se fechamos a porta da
nossa mesa ao Cristo que bateu com fome durante o dia.
Paz e bem!
Edjamir
Silva Souza
Padre e
Psicólogo


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