Felipe Tiago Gomes e sua Saga.


Nesta terça feira dia 1º de Maio, se estivesse vivo Dr Felipe Tiago Gomes estaria completando 91 anos de vida dedicados a educação brasileira. Dr. Felipe foi grande bem feitor do nosso município, pois mesmo sem ser político partidário conseguiu trazer muitos benefícios para o nosso município. Como por exemplo, o bairro Felipe Tiago Gomes (Antigo Cenecista), Escola Fazenda, Asfalto de Picuí a Carnaúba dos Dantas RN, Rádio Cenecista Am, etc, etc.

Em Picuí os mais novos podem conhecer melhor a sua história de vida, visitando o memorial residência Felipe Tiago Gomes, localizado na Rua 24 de Novembro que vem sendo montado por seu sobrinho Valdemiro Severiano com o intuito de manter viva na memória de todos a trajetória do Picuiense que se dedicou de corpo e alma a educação brasileira, onde se tornou comendador da educação desse país.

Fundou a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC que no início de sua existência teve outros nomes que vocês terão conhecimento na sua história de vida escrita por Raquel de Queiroz na matéria que segue abaixo com o título de A Saga de Felipe Tiago Gomes.
Momento famíla
Confira:

A inesquecível saga de Felipe Tiago Gomes inicia-se em 1º de maio de 1921. Nascido no Sítio Barra do Pedro, município de Picuí, na Paraíba, viveu sua infância diante de muitas adversidades. Como o próprio Felipe citava, sua meninice foi semelhante à de milhares de outras crianças sertanejas: pés descalços e picados por espinhos impiedosos, mãos calejadas pela enxada, incômodos “beliscões” das juremas e do colher juá, pequeno fruto com grandes caroços e a parte comestível mínima.

Era o filho caçula de Elias Gomes Correia e Ana Maria Gomes. Nas horas vagas recebia lições de sua irmã Francisca, que havia concluído o curso primário na cidade. Depois, teve aulas na escola de Dona Nativa, pessoa adorável que se dedicava ao ensino das crianças. Após ter frequentado a escola pública de Picuí, de 1933 a 1935, Felipe Tiago Gomes foi conduzido pelo Professor Pereira do Nascimento ao Colégio Pio XI, localizado na cidade de Campina Grande, Paraíba. Lá terminou o ginásio que, infelizmente, coincidiu com a morte de sua mãe.

Não tendo mais condições financeiras para manter-se em Campina Grande, Felipe viu-se obrigado a retornar a sua cidade natal, Picuí. Restava agora voltar à lavoura, vivendo no tormento da vida do agricultor sertanejo. Porém, Felipe Tiago Gomes obteve auxílio do Juiz de Direito, José Saldanha, e do dentista Doutor Morais, que o hospedou em sua casa no Recife.

Convidado por um colega, Everardo Luna, Felipe foi morar na Casa do Estudante. Passou a trabalhar como porteiro e logo em seguida conseguiu o posto de bibliotecário. Do contato diário na biblioteca, ele pôde ter acesso a diversas obras literárias. Dentre elas, O Drama da América Latina, do escritor John Gunther, onde é retratada uma experiência de Haya de La Torre para a alfabetização de índios no Peru. Essa obra o influenciou e o despertou para a criação de uma instituição que visasse assegurar o direito de estudar aos milhares de jovens pobres. E assim foi criada a Campanha do Ginasiano Pobre - CGP, hoje Campanha Nacional de Escolas da Comunidade - CNEC.

Em 1944, concluiu o pré-jurídico e inscreveu-se para os exames vestibulares da Faculdade de Direito de Recife, conseguindo aprovação. No segundo ano, foi escolhido representante da turma junto ao Diretório da Faculdade e, dois anos após, eleito Presidente. No último ano do curso, foi eleito Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Pernambuco, quando criou o Teatro Universitário.

Filiou-se à UDN (União Democrática Nacional) e formou um núcleo de resistência ao governo de Getúlio Vargas em Pernambuco. Logo após a eleição do governador Oswaldo Trigueiro foi nomeado, em 1946, prefeito de Picuí. Por nove meses foi considerado o prefeito mais jovem do Estado e terminando seu mandato reintegrou-se a então Campanha do Ginasiano Pobre.

É importante ressaltar que Felipe, simultaneamente ao mandato de prefeito, cursava Direito em Pernambuco. Ao formar-se em Direito, Felipe Gomes retornou à Picuí e recebeu homenagens dos seus conterrâneos, que somente uma ou duas vezes viram um filho da terra obter um título de grau superior.

Em 1948, o Professor Pereira Lira, Chefe da Casa Civil da República, prometeu a Felipe um emprego. Prontamente ele atendeu ao convite e viajou para a cidade do Rio de Janeiro, onde pretendia expandir o programa da Campanha. Na Capital Federal, o Professor Pereira Lira, por intermédio de José Gomes da Silva, político paraibano, mandara dizer-lhe que reservara um lugar no Instituto de Previdência na Paraíba. Mas suas pretensões não eram voltar à Paraíba e sim, permanecer no Rio para difundir a Campanha do Ginasiano Pobre naquele Estado.

A perseverança e coragem de Felipe foram virtudes que o auxiliaram a transgredir as muitas privações por ele passadas. A partir da instalação da primeira sede da Campanha na cidade do Rio de Janeiro, Felipe obteve apoio de políticos, prefeituras e diretórios estudantis, disseminando assim o ideal Cenecista nos vários estados brasileiros. Uma tarefa ardil, mas não impossível aos olhos desse grande homem. Grande na sua humildade, grande no seu sonho de democratizar o ensino, grande por ser o incomparável Felipe Tiago Gomes.

Em 1950, Felipe foi integrante da Campanha de Erradicação do Analfabetismo do Estado do Rio de Janeiro, tornando-se, em 1958, Diretor do Departamento de Ensino Médio da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Nos anos 60, foi Membro Diretor da Associação Brasileira de Educação e, a partir dessa década, dedicou-se integralmente, ao trabalho para o desenvolvimento da CNEC.

Em sua trajetória de fundador e líder da CNEC, Felipe Tiago Gomes recebeu inúmeras homenagens, além de títulos de cidadão honorário de diversos estados da federação.

Ao seu lado, Felipe Gomes sempre teve a presença de sua inseparável guardiã, a irmã Maria Alexandrina Gomes. Mulher austera em suas ações exerceu um papel histórico dentro da CNEC, participando ativamente com seu senso crítico discreto e intuitivo da personalidade feminina sertaneja. Foi responsável pela confecção da primeira bandeira Cenecista.

No dia 21 de setembro de 1996, Felipe Tiago Gomes faleceu em Brasília, vítima de complicações cardíacas. Deixou milhares de órfãos, Cenecistas e estudantes, que tiveram na Campanha Nacional das Escolas da Comunidade, um meio de integrarem-se com a educação comunitária e de qualidade. Um meio de tornarem-se cidadãos.

Por esse infindo legado, todo o Brasil é grato a Felipe Tiago Gomes. Um homem comum que se tornou ídolo para milhares de pessoas, e jamais será esquecido das mentes daqueles que conhecem o verdadeiro sentido de educar.

"O professor Felipe Tiago Gomes é em pessoa, o Inventor, o Pai, a Própria Alma da CNEC”.
RACHEL DE QUEIROZ.

Depoimento de Ivone Boechat

Em 1957, estudei no Colégio Mageense, hoje ele se chama Colégio Cenecista Dedo de Deus. Em 1968, fui convidada para dar aula, como professora voluntária, no Curso de Admissão do Colégio Cenecista Primeiro de Maio, em Santo Aleixo. Em 1969, fui convidada pelo Gal. Mário Barreto França, Superintendente da CNEC-RJ para dirigir uma Escola Cenecista, em Piabetá, no 6º Distrito de Magé-RJ. Apaixonada pela educação, claro, aceitei, novamente, mas quando fui conhecer a sede da Escola (100 alunos matriculados) não havia, fiquei um pouco assustada: a secretaria funcionava no corredor de um prédio que pertencia ao Estado e contava apenas com quatro salas de aula, iluminadas com lampiões a gás. Nenhum recurso mais. Um economista teria me aconselhado a sair correndo, sem olhar para trás. Todavia, consultei o coração e aceitei o desafio: fiquei 11 anos lutando, junto daquela comunidade.

Conheci Dr. Felipe, quando dirigia a Escola, numa tarde, quando estava triste, porque acontecera uma verdadeira catástrofe. Havia chovido muito e o vento derrubara uma grande parte da construção da sede própria. Tudo até ali havia sido feito com verba arrecadada de festas, sorteios, doação de amigos e muito luta. O que fazer agora? Lógico! Escrevi uma carta para a CNEC de Brasília, chorando e pedindo uma ajuda para reconstruir. Ele, Dr. Felipe, em carne, osso e emoções veio de tão longe (1000 km de distância) dar a resposta, pessoalmente, trazendo a ajuda que tanto precisávamos. Nem era grande a quantia em dinheiro, mas o amor demonstrado contagiou, abasteceu, e transbordou em nossas vidas.

Em 1973, fui conhecer Brasília, na única vez que consegui ficar de férias, claro, procurei o endereço da sede da CNEC. Onde? Fui ao Ministério da Educação para saber onde ficava. Ao subir, antes de apertar o botão do elevador, olhei e lá estava Dr Felipe. Muito feliz, porque o havia reconhecido, confirmei, ao perguntar, o senhor é o Dr. Felipe? E ele, como sempre, tão simpático disse que sim, aí estufei o peito (porque perto dele a gente se sentia sempre muito grande) e me apresentei. Descemos e, no mesmo dia, comecei a trabalhar, ajudando a organizar o Congresso e a comemoração dos 30 anos de vida da CNEC. Em plena crise de abastecimento de carne, levantava-me às 5 horas da manhã para entrar na fila e olha que faz frio, em Brasília, em julho. E as minhas férias? Ficou para outra época.

Voltei ao Rio. O Visconde de Mauá já estava com quase dois mil alunos. Na época eu era Secretária Municipal de Educação de Magé. Mais uma vez, qual foi a minha surpresa, quando o telefone tocou e, do outro lado, Dr. Felipe disse que o meu nome era o mais indicado para Administrar a CNEC-RJ. Fiquei perplexa! Minha cabeça deu milhões de voltas. Com dois filhos pequenos, morando a 50 km do Rio. Como seria isto? E o Visconde de Mauá? Meu marido, sempre respeitou minhas opções, mas essa mudaria muito a rotina de nossa vida.

 Como dizer não?

No dia 5 de junho de 1975, tomei posse. A CNEC estava unificando a administração da Guanabara a do Estado do Rio. Agora era um só Estado. Tudo muito complicado! Muitas Escolas deficitárias. Algumas deveriam encerrar as atividades. Só isto iria consumir todo o tempo, mas ainda havia outras 182 escolas Cenecistas clamando por assistência. Não havia fim de semana, férias ou feriado. Era dureza ver o meu filho caçula dizer que quando crescesse gostaria de ser piloto para jogar uma bomba em cima da CNEC! Porque ele sentia muito a minha falta... Apesar de todos os sacrifícios, vencemos sempre!

Em 1980, ao sair da direção da Escola, lá estava a sede própria do Centro Educacional Visconde de Mauá, numa área que meu pai pediu ao Prefeito Magid Repanni e foi doada pela Prefeitura, com o prazo de dois anos para construir, senão perderíamos a área. Todavia, o grande mutirão comunitário deu resultado: 12 salas de aula, secretaria, biblioteca, quadra de esportes, banda de música, e o nome da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade respeitado no Município de Magé.

Após anos de luta no Rio, no dia 06 de julho de 1990, fomos convocados novamente pelo Dr. Felipe para ajudá-lo, em Brasília, na Administração Central. Quem teria coragem de dizer não a um homem daquele? Arrumamos a mala e fomos eu e o meu marido, Nelci, que sempre me apoiou, trabalhando, sem receber um centavo da CNEC. A grandiosa luta continuou. Daria para escrever um livro, com lágrimas, muitas lágrimas, porém, as vitórias superaram e com a força de Deus caminhamos, sempre. Foram mais sete anos, em Brasília, ombro a ombro, com a equipe-irmã da Administração Central, inúmeras vezes, todos colocando o próprio corpo na frente do grande herói Felipe, para as pessoas não feri-lo, nas duras batalhas. Valeu a pena.

Quando em 1993, a CNEC completou cinquenta anos, o Teatro Municipal de Brasília estava lotado. A magia da entrada triunfal dos Estados, portando as bandeiras, a emoção do hino Cenecista cantado, com tanto fervor, e o encerramento de quase arrebatamento, quando o Pai Nosso foi cantado, a capela.

Em 1996, Dr. Felipe não morreu! O céu o convocou para contabilizar com os anjos, tudo o que a CNEC havia feito até ali: milhares de vidas resgatadas do abandono, do analfabetismo, da falta de oportunidade, da miséria social. A Deus toda honra e toda a glória!

Ivone Boechat
Ex-aluna, ex-professora, ex-diretora Cenecista, Ex-Superintendente Itinerante Nacional da CNEC,
Ph.D. em Educação.

Pesquisa: Francisco Araújo
Fonte: Internet.

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3 comentários:

Frei Martinho on line! disse...

Tendo em vista que esse grande homem deu sua contribuição para a educação não só de Picui, mas de todas as cidades de nossa região, tomamos a liberdade de republicar sua postagem em nosso blog, Dr. Felipe como era mais conhecido foi um marco para nossas cidades, nossa educação se resume em duas épocas, antes e depois de Felipe Tiago gomes.

Consultora em Educação disse...

Prof.Felipe Tiago Gomes é o maior educador brasileiro de todos os tempos! Que outro homem se dedicou mais à educação do que o prof.Felipe, quem fundou mais escolas do que ele, quem deu mais amor? Quem? O Brasil tem o privilégio de registrar este filho tão dedicado, tão bom, tão guerreiro. Milhares de estrelas brilham no céu representando a gratidão das pessoas que um dia bateram na porta de uma escola e a encontraram aberta, porque um profeta passou antes por lá: FELIPE.
Ivone Boechat

Consultora em Educação disse...

No Brasil inteiro, a pé,
a CNEC chegou na frente,
abriu escolas pela fé,
trouxe esperança pra gente.

Ivone Boechat

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