PALAVRA DO SENHOR – Uma luz para todos os povos.
Depois ouvirmos o Pai dar
testemunho de Jesus (cf. Mt 3,17) e, em seguida, João Batista (cf. Jo 1,29-34)
confirmando que Jesus é o Messias esperado, neste domingo, seguimos Jesus nos
primeiros passos de sua vida pública e sua pregação sobre o Reino de Deus.
A liturgia da Palavra, a
partir deste domingo, nos permite reviver os grandes anúncios que Jesus havia
feito ao mundo e a reconhecer neles o cumprimento da promessa de Deus desde o
Antigo Testamento. Agora é hora de acolher não só Jesus, o enviado, mas também
o anúncio do Reino de Deus que Ele traz. Vamos aos textos de hoje...
A
1ª Leitura (Is 8, 23b-9, 1-4) o profeta fala aos galileus
deportados por Tiglat-Pileser III (732 a.C). Um povo que caminhava encurvado,
acorrentado e abatido para o exílio; uma noite escura. A este povo o profeta
anuncia uma luz inesperada. Será o fim da escravidão, o fim da submissão
imperialista e o retorno à sua pátria exultante de alegria.
Segundo o historiador Flávio
Josefo (Antiguidades Judaicas, livro IX) Tiglat-Pileser foi um poderoso rei da
Síria que interveio nos assuntos do Reino de Israel e Judá durante o século
VIII a. C. Segundo o historiador o rei Acaz de Judá desesperado por estar sendo
derrotado pelos exércitos de Israel e da Síria, enviou emissários, presentes e
muito dinheiro a Tiglat-Pileser, pedindo ajuda. Ele ataca a Síria, tomou Damasco
pela força matando o rei Rezim e deportando a população. Após subjugar a Síria,
invadiu Israel e deportou os habitantes para Assíria. Mas, essa ajuda não ficou
barata, pois Tiglat-Pileser exigiu pesados tributos de Acaz, esvaziou os
tesouros do templo de Deus e do seu palácio para pagá-lo e reconhecendo como
seu senhor.
Esta profecia se estende
como uma promessa a todo o ser humano que vive a experiência do mal e da
escravidão. É uma promessa para quem está curvado sobre o peso de duras
realidades, escravo de patrões e empresários megalomaníacos, mercenários e
desumanos: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz [...],
multiplicastes alegria, fizestes crescer a felicidade. Alegraram-se diante de
ti, como a gente se alegra quando se ceifa e exulta quando se dividem os
despojos” (Is 9, 1).
A alegria do povo é
comparada como quem se alegra com o resultado da vitória e a partilha das
riquezas. Essa profecia tem um tom social: o povo que vivia nas trevas agora se
alegra com a vitória de quem partilha as riquezas (não compactuando nunca com
quem acumula) e um tom espiritual-profético: significa que Jesus, após o seu
sacrifício partilha as riquezas e os resultados da sua vitória sobre o pecado e
a morte.
No
Evangelho (Mt 4, 12-23), pouco depois de seu batismo, Jesus vai
para Cafarnaum, na Galileia, exatamente na região onde um dia viu as multidões
dos hebreus se encaminharem para o exílio. A presença de Jesus nestas terras é
sinal de que Deus realiza uma antiga promessa: “para se cumprir o que foi dito
pelo profeta Isaías” (v.14).
Iniciando sua vida pública e
anunciando o Reino de Deus Jesus se torna a grande luz para aquele povo, mas
também para toda a humanidade. E o que significa que Jesus é a luz? Significa
que Ele é um caminho seguro a seguir, que o que Ele ensina é um caminho
verdadeiro e traz vida. Ao mesmo tempo em que Ele é caminho é também
companheiro de caminhada. Nele temos acesso ao Pai (cf. Jo 14,6). Ele é um
estilo de vida que faz chegar ao Pai.
Sua mensagem resgata o nosso ser de uma humanidade mergulhada na
decadência do pecado: “aquele que me segue não anda nas trevas, mas terá a luz
da vida” (Jo 8,12).
Jesus
é a alegria que alimenta as boas utopias do bem viver. Quando
nasceu, foi anunciado como “a grande alegria do mundo” (cf. Lc 2,10). Na
vigília de sua morte disse: “para que minha alegria esteja em vós; e vossa
alegria seja plena” (Jo 15,11. 16,24).
A palavra Evangelho
significa boa noticia, ou seja, anúncio de alegria e felicidade: “Eu vim para
que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10) e alegria significa vida
plena.
Jesus
resgata a alegria de ouvir a Palavra de Deus que tinha sido privatizada por
grupos moralistas-legalistas que oprimiam e reduziam o horizonte do bem viver,
sufocando a liberdade e qualquer possibilidade de ir além, tornando a religião
um fardo pesado e opressor. Ele é a Palavra que dá sabor a existência:
“alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,
12). São Paulo dirá: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl
4,4).
Na Carta aos Gálatas (5,22)
Paulo diz que a alegria é a manifestação da presença do Espírito na vida de um
cristão: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade,
bondade”.
Ainda hoje, há um mundo
envolvido em trevas que nos desafia exatamente neste terreno: violência,
opressão, mentiras, discórdias, desconfianças, rixas, cristianismos sem Jesus,
religião que não gera autonomia, mas dependência e paralisia. Políticos e
sistemas autoritários que curvam as pessoas e negam as liberdades individuais e
exaltam a liberdade econômica (Mamon).
Quando a vida acontece para
todos, então, a alegria se expande, a existência é leve, as sociedades são mais
justas e equitativas, as tribulações se tornam oportunidade de crescimento. Não
existem oportunistas, mas oportunidades de crescimento. Há um mundo que crer em
Jesus e vive seus ensinamentos. Há outro que crer em Jesus, mas não crer em
seus ensinamentos. Há outro que nada crer.
O profeta Isaías, que viveu
séculos antes de Cristo, já percebia o deboche e a descrença de um mundo que
não crer: “Eis o que dizem vossos irmãos que vos odeiam, que vos renegam por
causa de meu nome: ‘Que o Senhor manifeste sua glória para que vejamos vossa
alegria’” (Is 66,5).
Peçamos a Deus a graça de
Seu Espírito e o dom da alegria. Deixemos que o anúncio do Evangelho desça ao
coração. Não sejamos cristãos de madrugadas de devoções, porém, impermeados que
não deixam o evangelho entrar. É importante migrar de nossos exílios, ou como
dizia Platão, de nossas cavernas.
“Fizestes crescer a alegria,
e aumentastes a felicidade (...). Pois o julgo que oprimia o povo – a carga
sobre os ombros, o orgulho dos fiscais, tu os abatestes” (Is 9,2a. 3). Senhor,
ainda hoje esperamos confiantes que o orgulho e arrogância dos muitos que se
julgam donos do mundo e das pessoas sejam abatidas. Desperta no vosso povo o
senso de vida plena para todos e uma alegria compartilhada. Abre os olhos do
nosso coração.
Edjamir
Silva Souza
Padre e Psicólogo


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