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PALAVRA DO SENHOR – Do deserto à Cruz, Jesus segue por outra lógica.

O Evangelho neste Primeiro Domingo da Quaresma (Mt 4, 1-11) nos diz que Jesus foi para o deserto conduzido pelo Espirito Santo (v. 1), logo após o seu batismo nas águas do Rio Jordão (3, 13-17). Há um paralelo claro e intencional entre a cena do evangelho e a história do Povo de Deus (AT) que, depois da travessia do Mar Vermelho (cf. Ex 12-15), guiados por uma Luz (cf. Ex 13, 21-22), atravessam o deserto (cf. Ex 15, 22-18, 27) rumo a Terra Prometida.

A Sagrada Escritura nos recorda que o povo de Deus não saiu de seus palácios, nem terras férteis, mas que este povo foi formado a partir de grupos despojados, sem terra, sem autonomia, viviam de trabalhos explorados. Esse povo vivia como migrantes e chegaram ali no Egito em busca de um lugar para poder existir.

Essa travessia tem muitas formas de compreendê-la: pode ser vista num contexto geográfico, politico, existencial e espiritual. E, em todos os casos, atravessar o Mar Vermelho (como também o Jordão) significava romper com a lógica da escravidão, da sujeição para entrar na dinâmica de um mundo novo de muita liberdade e vida. E a lógica do Deserto não é a do castigo, mas de discernimento. É o lugar onde tudo começa/recomeça.

O deserto é o lugar de formação de um povo, a busca da identidade, lugar onde se aprendeu a buscar o essencial, a superar a idolatria, a partilhar o maná e o lugar de assumir compromissos com Deus, é o lugar do desejo de ser feliz (de ter uma identidade e ser acolhido). É o lugar de se desejar de ter uma moradia digna e existir...

O deserto é lugar das tentações e as respostas a serem dadas a elas. Na primeira tentação, Jesus esta com fome. Mas a tentação não se refere a comer, mas usar o poder para resolver as próprias necessidades sem enfrentar a lógica injusta do mundo. Mesmo sendo Filho, Ele prefere não a meritocracia, mas o enfrentamento das injustiças. Ali, Jesus responde as tentações do demônio fazendo uma memória: “nem só de pão vive o homem”. É obvio que o pão é necessário, Jesus até os multiplica para saciar a fome das multidões, mas Ele quer com a força de sua palavra profética (e não mágica) enfrentar todo o tipo de desigualdade (diabólica).

A segunda tentação se refere ao ambiente religioso. O demônio usa da Sagrada Escritura e o Templo para fazer um espetáculo no ponto mais alto da Casa de Deus. No texto de Mt 6, 1-6. 16-18 Jesus convida a vivência madura de uma espiritualidade concreta, na pratica real da justiça de Deus, mas sem um ego inflado como os Mestres da Lei e os Fariseus. Jesus observava que o povo vivia desorientado em relação a sua mística e identidade de povo de Deus que se tornaram ESCRAVOS DE UM TEATRO RELIGIOSO QUE ATRAI MULTIDÃO  E PROMOVE APENAS EGOS INFLADOS.

Jesus recusa isso. Até o momento da cruz ele viveu se autoproclamando para manipular ou sujeitar ninguém Ele não usou a religião instrumentalizando-a por interesses pessoais. A fé não é um espetáculo que serve de cortina de fumaça (de incensos) para cobrir injustiças (cf. Is 58, 1-14).

A terceira tentação é um claro desvio de personalidade: O DIÁBO É MEGALOMANIACO. Ele apresenta todos os reinos do mundo (glória e poder) como seus. E diz que  tudo isso pode ser de Jesus se Ele se curvar e adorá-lo. Essa é a lógica do imperialismo que está na cabeça de muitos lideres: TUDO É MEU e se alguém quiser que se curve a mim.

Essa é a insanidade que atinge a muitos que são movidos por ambições. São personalidades adoecidas e que fazem adoecer o mundo. São pessoas arrogantes que semeiam subserviência, sujeição, buscam anular a diversidade (em nome de uma supremacia), perseguem e excluem, tratam mal os pequenos... e, ainda, conseguem seduzir a muitos com propostas tentadoras de glória e poder sobre os outros. QUEREM SER OS SENHORES DO MUNDO.

Do deserto à cruz, Jesus caminha por outra lógica: despojando-se totalmente. Ser de Deus não é ser grande, mas pequeno. E é no deserto que se revela qual o projeto nos identificamos e servimos.

A nossa vida é uma travessia. A vida acontece quando caminhamos e não nos detemos naquilo que aliena nossa existência e condição de Filho de Deus. O Evangelho da Vida é caminho de libertação e vida. Há uma canção de um autor pernambucano que diz: “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” (Siba).

Caminhem, caminhem, mas façam como os Magos que caminharam por outro lugar, fugindo da arrogância de Herodes (cf. Mt 2, 12).

Em todas as provocações do diabo, encontramos a tentação de fazer a vida parar ou ancorar numa egolatria que a muitos já devorou. Mas, é o Espirito de Deus que sopra para podermos continuar atravessando. E o deserto continua sendo o lugar para aprendermos a renunciar tudo aquilo que não nos leva a Deus e o seu Reino: “afasta-te de mim, Satanás!”

 

Boa semana! Boa Quaresma!

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

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