PALAVRA DO SENHOR – A espiritualidade da paz e o desmonte do domínio.
A liturgia neste 14º Domingo
do Tempo Comum nos convida a viver na lógica do Espírito de Deus e não nas
obras da carne. A vida segundo a carne é a imagem daqueles que se instalam no
egoísmo, na vaidade, na arrogância, na violência e na autossuficiência. Deus é
exatamente o oposto disso e, por isso, dizemos que não pode haver a perfeita
alegria longe de Deus.
A 1ª Leitura (Zc 9, 9-10) é
um convite a exultar de alegria acolhendo o “rei da paz”: justo, salvador,
humilde, sem instrumentos de guerra e ânsia de poder. Ele prefere a paz e sua
paz é feita de misericórdia que se estende por todas as nações e tempos (cf.
Salmo 106 (105), 5 / Lc 1, 50.).
Onde começará essa revolução
profética da paz? Desmontando muita coisa dentro de nós e das estruturas
humanas. A ânsia de poder e domínio revela uma profunda ferida narcísica, uma
carência de base que faz com que a pessoa sinta que precisa controlar o
ambiente para não ser devorado por ele. Constantemente estamos obstinados à
neurose de “controlar tudo”. Queremos ter o controle de tudo e sofremos muito
por causa disso.
Segundo a psicanálise o
“desejo de domínio” esconde inseguranças e medos, compreendidos como um
“mecanismo de defesa” do ego que pode agir de modo mais perverso possível
quando contrariado. O desejo obcecado por ter tudo, controlar tudo e todos,
submeter tudo e todos ou ter sempre razão funciona como uma armadura de um ego
frágil. Dominamos porque temos medo de ser dominados, de falhar ou de olhar
para o nosso desamparo. Desmontar essa lógica exige a coragem de depor as armas
do orgulho. É graça de Deus reconhecer que somos inacabados, falíveis, que não
somos onipotentes.
Quantas pregações ou
discursos de influenciadores que vivem dizendo que “você pode tudo é só querer,
pois querer é poder!”. Esse discurso denuncia um ego infantil que não aprendeu
a ouvir “não”. Quantos homens e mulheres de poder que vivem a fantasia
narcísica de dominadores.
Certa vez, Freud visitou os
EUA (1909) e disse que o povo norte-americano tinha um “desejo obcecado” por
dinheiro, os considerou selvagens por querer ser melhores que todos os povos
(puritanos e otimistas). A obsessão pelo sucesso rápido e o otimismo
superficial demonstrava imaturidade emocional e puritanismo hipócrita. Não
gostavam de intelectuais e não financiavam o pensamento, pois tinham medo de
serem questionados. Argumentava que ao tentar uma sociedade baseada no
puritanismo, pragmatismo e bem–estar material, a cultura norte-americana não
conseguia aprofundar a complexidade do ser humano. Por isso, não inspirava causas
humanistas, mas sempre o amor ao dinheiro e ao poder. Esse é o Mal-Estar na
cultura e na civilização ocidental capitalista.
Essa posição freudiana se
alinha com a espiritualidade bíblica de “quebrar o arco de guerra, abrir mão
dos cavalos e o melhorar a vida interior”. A verdadeira paz começa quando o eu
renuncia a ilusão de que precisa ser onipotente. É fundamental sair da lógica
do domínio para a lógica da alteridade. A teologia do domínio se dá na sensação
de uma falsa transcendência, que reproduz os esquemas de poderes humanos
(verticalidade), onde Deus é apresentado como um narcisista perverso e
dominador.
Do narcisismo à
vulnerabilidade. A “virada teológica” se dá com ouvir os profetas e o próprio
Filho de Deus, mas também com a teologia paulina do “segundo Adão”, que é
Jesus, que subverte toda a lógica de poder para escolher mansidão e humildade.
Viver sobre a lógica da carne significa estar preso no automatismo de repetir
violência com violência. A vida “Nova no Espírito” significa assumir o julgo
suave da mansidão, que não tem nada de submissão, mas de firmeza interior.
O profeta Zacarias ao falar
do rei montado num jumentinho nega a estética militar e politica de todo o
imperialismo como viés teológico e nos chama para viver a espiritualidade da
paz. Se quisermos entender Deus é fundamental “sair do eixo do poder” para o
“eixo do amor e serviço” que reconhece o valor do ser humano e não adere à
lógica da obsessão de controle.
Quem atua na lógica do
domínio não escuta, apenas projeta suas certezas e querer sobre os outros. O
outro passa a ser um objeto a ser vencido e manipulado. A espiritualidade da
Aliança ensina a reconhecer a existência do outro em sua própria subjetividade.
Quebramos a lógica do colonizador quando compreendemos que ninguém manda em
ninguém e quando acolhemos e respeitamos o outro. Já aprendemos isso? Como
vivemos isso em família? E na Igreja? E na vida social? E na politica?
Na cultura das “redes
sociais” encontramos, com frequência, a tentativa de domínio disfarçada de
“influenciadores” ou “pessoas dando opiniões” absurdas sobre os outros. Um
imperialismo odioso disfarçado de falsa democracia e gente de bem: xenofobia,
homofobia, aporofobia, racismos, etc.
A 2ª Leitura (Rm 8, 9.
11-13) nos recorda que o Espírito de Deus que habita em nós (o mesmo Espírito
da Criação, dos Profetas, da Encarnação, da Ressurreição...) fez-nos
ressuscitar das obras da morte, dos impulsos do egoísmo (obras da carne). A
santidade de Deus é, em nós, quando a luz das boas obras de Deus (misericórdia)
atua nossa condição carnal: “Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem e os
vossos santos com louvores vos bendigam!” (Sl 144(143), 10).
O Evangelho (Mt 11, 25-30) é
uma profunda e linda louvação ao Deus que é Pai. Jesus louva o Pai com o perfeito
louvor dos pequeninos (cf. Sl 8). Deus não escuta os arrogantes, os perversos,
os dominadores que roubam a consciência e a liberdade, mas os excluídos, os
pequenos e os pecadores. Deus fez questão de nos dizer, pelos lábios de Jesus,
que Ele não caminha com presunçosos, mas atua na história de libertação dos
excluídos.
Para falar da grandeza da
humildade ao Filho, Deus o fez nascer numa periferia, no território pagão onde
estado e religião preferem, muitas vezes, passar longe ou mesmo explorá-los financeiramente.
Será que os pais ensinam isso a seus filhos? A Galiléia é o lugar teológico de
Deus e a mansidão e humildade são as virtudes de caráter do cristão.
Como estamos acostumados em
admirar personagens grandes e poderosos e fazemos deles nossos influenciadores,
então, tudo se torna estranho na compreensão do evangelho de Jesus. Aprender
com Jesus exige não só aulinhas de catequese, mas um deslocar-se de nossas
posições e interesses. Estar ao lado dos que estão massacrados, cansados e
oprimidos não tem sido muito nossas pautas pastorais porque nosso caminho nem
sempre é o de Jesus. Seguir Jesus e carregar sobre nós o fardo da doçura (na
defesa do ser humano) é um dom da vida Nova do Espírito.
“Eu te louvo, ó Pai” (v.25).
Essa é a louvação e a sabedoria dos humildes. Essa é a decisão de Deus,
revelar-se aos pequenos. Quando aprenderemos isso? Você tem espiritualidade?
Você tem a paz de Jesus?
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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