PALAVRA DO SENHOR – Uma semente que cresce no coração e tudo transforma.
Em todos os momentos da
história humana (que é história da salvação) o (re) encontro com Deus e seu
projeto de vida sempre foi marcado por muitas alegrias e novas decisões, apesar
das muitas tensões: a libertação do povo das mãos dos tiranos e perversos (Ex
7-14. Salmo 136(135), 10-15), o término das guerras (Jz 5. 2 Cr 20, 26-30. Sl
46), a luta contra a fome (Gn 41-47. Rt 1 e 2. 2Rs 7), o desmonte do sistema do
crime e diminuição da violência (Sl 10,15. Sl 37, 14-15. Jó 5, 12-13. Sl 46,
9), a garantia dos direitos individuais (Ex 2, 13. 21, 16. 23, 1-2. 6-8. Nm 35.
Lv 24, 22. Dt 24,17), o respeito e a inclusão das minorias (Lv 19- 33-34. 22,
21-23. Dt10, 18-19), etc. Isso nos faz pensar que o encontro com Deus é,
também, um encontro com Seu Reino e a Sua Justiça” (cf. Mt 6,33).
Na liturgia deste final de
semana celebremos as conquistas que Deus nos permite realizá-las. E se me
permitem, preciso compartilhar este fruto...
O 20° Anuário Brasileiro de
Segurança Pública, divulgado e Julho de 2026, mostrou que o Brasil (2025)
registrou 40. 775 mortes violentas intencionais, uma queda de 8,2%
representando um menor patamar em 13 anos. Mas, infelizmente, o país atingiu o
recorde de 1.571 vítimas de feminicídio (2025), crescimento de violência
psicológica (+17%) e perseguição stalking (+30%), 6.602 mortes por intervenção
policial (+5,4%). No Estado da Paraíba a taxa recuou para 24,6 mortes por 100
mil habitantes. Foram 1026 crimes violentos letais intencionais (2025),
equivalente a 3 mortes por dia. João Pessoa (233), Santa Rita (97) e Bayeux
(56) tem o maior índice de violência do Estado. Santa Rita está entre as 10
cidades mais violentas do país e Campina Grande registrou o menor índice entre
os grandes municípios paraibano (8,1).
Sabemos que a violência é
uma pauta séria de nosso tempo e ela tem muitas vertentes. Há muita coisa a se
fazer e a Igreja, portadora do Evangelho da Vida (do Reino de Deus) tem um
papel fundamental na construção de um novo céu e uma nova terra. Mas, ela tem
que está atenta à Palavra da Vida e aos sinais dos tempos.
O que é o Reino de Deus?
Essa é a grande causa de Jesus e a utopia de sua vida. Ele ensinou que o Reino
de Deus é uma realidade espiritual que é semeada no campo da vida. Ele faz
superar aquele espiritualismo vazio e o moralismo individualista (que reduz as
coisas de Deus e as pessoas ao cumprimento de regras e rubricas e
emocionalismo), mas algo que se manifesta no dom do amor, na verdade e na
justiça. É semente que cresce no coração de pessoas livres, transformando relações
e sociedades de dentro para fora.
O evangelho de semana
passada (Mt 13, 24-43) nos alertava dos riscos que as comunidades enfrentavam
ao acolher a semente do Reino: o joio (a tentação da presunção dos
eleitos/meritocracia dos que se sentem superiores aos outros), o grão de
mostarda (alertou da grandeza) e o fermento na massa (alertava do desânimo).
No evangelho de hoje (Mateus
13, 44-52) Jesus continua nos convidando, através das parábolas, à fidelidade
ao Reino que Ele ensinou. Porém, Jesus ensinou que para segui-Lo há que se
apaixonar por esta causa ao ponto de deixar tudo para segui-Lo. O apóstolo
Paulo descreveu muito bem esse “deixar tudo para traz”. Diz ele: “O que para
mim era ganho, considerei perda por amor de Cristo” (Fl 3, 7-8).
Quando se encontra Jesus e
seu projeto de vida a resposta não é marcada pela euforia das emoções e
superficialidade (Mt 13, 20-21), mas pela alegre sinceridade de saber que
escolheu estar do lado certo da vida e da história, isto é, dessa justiça do
Reino semeada no campo da vida.
Jesus disse que o Seu Reino
não é uma proposta que se torna um fardo pesado (cf. Mt 11, 28-30), mas seu
seguimento gera alegria. E a expressão “alegria” aparece 6 vezes no evangelho
de Mateus. O seguimento de Jesus qualifica as pessoas e sociedades, não torna
ninguém “escravo”, “coisa” ou “propriedade”, mas pessoas dignas. A Justiça do
Reino de Deus resgata o ser humano do pecado e o reconecta com a boa arte de
viver.
O Reino de Deus é uma busca,
uma pesca, um dinamismo constante (e nunca um enrijecimento de coisas já
prontas) e cotidiano de quem tem o desejo de vida, de liberdade, autenticidade,
verdade e justiça.
“Separar os homens maus” (Mt
13, 49s). O final dos tempos (não é citado o final do mundo) Deus e seus anjos
vão fazer esta separação, mas, a nós compete o discernimento: o que é joio e o
que é trigo? Os fieis/justos que permaneceram unidos a Jesus e a causa de seu
Reino terão vida eterna.
“A fornalha ardente”, uma
figura usada pelo profeta Daniel (3,6) inspirou o que Jesus disse nesse texto
ao se referir o fim daqueles que não compactuam com o Reino de Deus e a Sua
Justiça. Segundo Daniel, Nabucodonosor, rei da Babilônia, condenava ao fogo
todos aqueles que não o adorassem.
A fornalha ardente é a
destruição completa de quem adora o poder, se destruindo completamente. Quem
escolhe o amor, a generosidade, a partilha (próprio do Reino) terá o Reino de
Deus, inaugurado por Jesus. A ganância, o poder, a idolatria levam o coração do
ser humano à morte. O julgamento por parte de Deus será apenas uma constatação
entre quem escolheu a vida ou a morte. Deus apenas separará. “Compreendestes
tudo isso?” (Mt 13,51).
“Todo o Mestre da Lei
(escriba) que se tornar discípulo de Jesus” (Mt 13, 51). O texto é um convite à
conversão das autoridades do Sinédrio, mas serve para todos nós que desejamos
seguir Jesus. É preciso ir à escola de Jesus para descobrir (ou mesmo
redescobrir) o Reino de Deus. O discípulo de Jesus é discípulo da Nova Aliança
e não de um retrocesso.
A história continua e o
Reino de Deus semeado entre nós faz nascer uma sociedade “alternativa” frente a
lógica do mundo. Por isso que quem procura o Reino O encontra na vida.
A longa história humana é
história de busca pela felicidade. Às vezes, buscando em Deus, às vezes, se
distanciando Dele. Às vezes, as pessoas buscam a Deus, mas não querem conformar
suas vidas segundo a proposta do Reino, mas apenas para obter favores
sobrenaturais (Deus é reduzido a um guru, curandeiro, coaching). O Projeto do
Reino de Deus parece não encantar mais. As pessoas de nosso tempo têm
dificuldades de se despojarem de seus interesses mesquinhos para configurarem
seu viver no dom do Reino. O anúncio eclesial parece ter dificuldades de
alcançar a causa de Jesus. “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça”
(Mt 6,33).
Feliz dia dos avós! Boa
semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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