PALAVRA DO SENHOR – O amor é o mais belo ornamento que torna a vida leve.
As festas litúrgicas, na Igreja Católica, têm um caráter:
Trinitário, Cristológico e Eclesial. A solenidade da Assunção de Maria nos
coloca dentro do Mistério da Salvação realizado em Jesus Cristo: “Cristo
ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (...). Em Cristo, todos
reviverão” (1Cor 15 20. 22b). O que hoje celebramos é o poder amoroso e a
criatividade de Deus.
O Magistério da Igreja nos ensina que Maria, terminada a sua
vida terrestre, foi assunta aos céus (Pio XII Munificentissimus Deus, 1 de
novembro de 1950). Essa verdade de fé nos indica o cumprimento da graça que
Deus lhe concedeu na sua imaculada conceição.
Os textos de hoje, que dão fundamento à solenidade que
celebramos, estão cheios da “linguagem criativa de Deus” na história da
salvação: a mulher, um filho, a arca da aliança, os inimigos de Deus, a glória
de Deus, a ação salvífica e a vitória de Deus. Meditemos o que Deus tem a nos
dizer...
A 1ª Leitura (Ap 11, 19a; 12,13-6a.10ab) abre a liturgia da
Palavra, dizendo: “Abriu-se o santuário de Deus nos céu e apareceu a Arca da
Aliança” (v. 19a). Essa é a primeira imagem que temos. No Livro do Êxodo (25)
se diz que o Templo construído na terra seria semelhante ao Santuário de Deus
que Moisés contemplou, tirou as medidas e disposições das coisas. Aqui há um
paralelo entre as duas referências (céu e terra).
Sabemos que um dia essa “Arca da Aliança” foi perdida. Em 2Mc
2, 7-8 se diz que Jeremias tinha guardado a Arca num lugar e que um dia, o
Senhor, faria reaparecer em glória, assim como na nuvem. Então, o autor sagrado
do Livro do Apocalipse faz aqui uma referencia a ela para dizer que Deus fez
agora, em Cristo, uma Nova Aliança.
“Uma mulher vestida de Sol, a lua debaixo de seus pés e na
cabeça uma coroa” (Ap ). Há aqui uma
nítida referência entre as tensões da Mulher no Gênesis (inimizade entre ti e a
serpente) e agora esta mulher do Apocalipse (ela e o dragão).
Muitas obras de arte tentaram descrever esta cena que é,
naturalmente, aplicada a Igreja, mas também a Maria (que é um membro da vida
eclesial e modelo de fé). A imagem de uma jovem mulher que se eleva sobre a
abóboda da terra descreve, na verdade, aquilo que havia em seu coração: o céu e
a terra, o tempo e a eternidade.
O corpo e o coração desta Mulher estão imaculados e se mantém
com a alma pura, que não se envenena pelas feras do mundo e nem pela besta
(demônio). A beleza desta mulher não esconde os sinais do amor que não tem fim.
Essa é uma forma de beleza que questiona os conceitos de
estética que o mundo, freneticamente, busca e (hedonista, consumista, idolatra
e frio) nos empurra para baixo, onde as coisas passam (nem tudo o que reluz é
ouro). Há rostos e corpos encurvados pela luta do dia a dia, demarcados pela
rejeição (negros), pela condição afetiva e sexual...com sinais de grandes
batalhas (rejeição e perseguições), mas com um coração puro, benevolente e de
cheio de paz.
Este sinal nos faz pensar para que fomos criados e qual o
destino final de nossas vidas. É uma pergunta que alcança tanto um coração de
um jovem como o coração de um adulto. Este sinal nos faz pensar que o amor é o
mais belo ornamento do ser humano que nos torna leves e livres para o encontro
com o eterno.
Certa vez, disse o papa Francisco: “Entre o finito e o
infinito, Maria soube transformar uma gruta de animais em uma casa para Jesus.
Com os pobres paninhos e uma alta montanha de ternura” (Evangelii Gaudium,
286). Agora, nesta sua assunção, ela testemunha aquilo que sempre acreditou ser
possível: “unir as duas ponta, o céu e a terra”. Mais uma obra magnifica de
Deus que realiza coisas impossíveis.
Maria, a humilde serva de Deus, é testemunha de abertura e
modelo para aqueles que querem ir, um dia, para o céu e estar ao lado de Deus.
Na ordem da graça o Mistério da Ressurreição abriu portas para a Assunção de
Maria, mas também para a nossa. Um dia voltaremos para Casa, esse é mais um
recado da liturgia de hoje.
“A Mulher estava grávida e estava em dores de parto” ( ). A dimensão eclesial fica em evidência
neste versículo. Esta mulher é a Igreja que está gerando filhos em meio às
dores das perseguições.
“Apareceu outro sinal no céu, grande dragão, cor de fogo.
Tinha sete cabeças e dez chifres. E sobre as cabeças sete diademas” ( ). Em oposição ao primeiro sinal (positivo)
está este sinal (negativo).
O profeta Daniel (2,7) fala das bestas descrevendo-as assim
“em minha visão noturna vi a quarta fera/besta. Ela era medonha terrível e
muito forte. Tinha enormes deste de ferro. Paralelo, o livro do Apocalipse (13,
10-11) diz: “Eu vi uma fera que subia do mar: tinha dez chifres e sete cabeças
(...), vi também outra fera que saia da terra, Tinha dois chifres como
cordeiro, mas falava como dragão”. Há uma linguagem simbólica para uma
comunicação enigmática.
Este é o sinal do inimigo escatológico que tem muitos nomes
(satanás, o diabo, os demônios, etc), mas tem um único jeito de ser: ele é a
personificação do mal. Ele condensa a maldade e a perversidade. Ele tem como
porta voz (porta vozes) as feras poderosas deste mundo e que estão em todos os
lugares (mar, terra, ar...). Ele arrasta e derruba a muitos (representado pelas
estrelas: descendência de Abraão/ as dozes tribos e os doze apóstolos).
“Ela deu a luz ao seu Filho que veio para governar com cetro
de ferro. O Filho foi arrebatado para junto de Deus e ela foi para o deserto”
( ). Há um alcance interpretativo para
compreendemos Maria e a Igreja (figura escatológica).
Na 2ª Leitura (1Cor 15, 20-27) Paulo fala ressurreição de
Cristo e os primeiros frutos de sua ressurreição. No pecado de Adão, a
participação de todos. E na ressurreição de Jesus, a solidariedade da
ressurreição para todos. É a promessa da vida em Cristo.
No evangelho (Lc 1, 39-56) a cena acontece logo após o
anuncio da encarnação. Maria corre para a casa de Isabel (que cheia do Espirito
Santo compreende a alegria de Maria) e lá escuta que ela é bendita entre todas
as mulheres, por causa do Fruto de seu Ventre. Ela é a Mãe do Senhor. Ela é bem
aventurada por que acreditou nas promessas.
Esse é um relato parecido com o 2Samuel 6 quando se refere a
Arca da Aliança e que se diz ”Naquele dia, Davi sentiu temor no Senhor: ‘como
chegará até mim a Arca do Senhor (...). Davi desviou a Arca para a casa de
Obed-Edon que ficou ali por três meses. E o Senhor abençoou Obed-Edon e toda a
sua casa”. É um perfeito paralelo. De um lado, Isabel sente um temor
reverencial com a presença de Maria (A arca) e do outro Davi diante da Arca da
Aliança. Em ambos os casos a arca fica três meses na casa de uma família.
Aqui temos uma leitura espiritual e, assim, concluímos nossa
reflexão. Maria foi a casa mais amorosa que acolheu Jesus. Ela é a Arca da Nova
Aliança. A casa do Pai será a casa definitiva de Jesus e de seus seguidores.
Maria foi elevado ao céu. Mas, Isabel também acolheu os dois em sua casa. Não
tenha medo de acolher ambos na sua também. Na conclusão da Semana Nacional da
Família, pensemos nossa vocação à vida cristã, nossa condição de filhos de Deus
e no final de nossa existência. ROGAI POR NÓS SANTA MÃE DE DEUS...
Boa semana para todo: boas lutas, boas conquistas e sempre na
graça de Deus!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo


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