Congresso promulga fim da escala 6x1 em primeira mudança da jornada de trabalho desde 1988.
Emenda foi publicada em
edição extra do Diário Oficial da União (DOU) desta sexta. Jornada máxima será
reduzida gradualmente de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial;
mudança começa a produzir efeitos após período de transição.
O Congresso Nacional
promulgou nesta sexta-feira (16) a emenda à Constituição que acaba com a escala
de trabalho 6x1 e garante aos trabalhadores dois dias de repouso remunerado por
semana, sem redução salarial. É a primeira mudança na jornada de trabalho em 38
anos, desde a Constituição de 1988.
Durante a Constituinte, a
redução de 48 horas semanais para 40 horas foi discutida. Mas sem apoio
suficiente, a jornada ficou em 44 horas. Agora, a Constituição passa a prever o
limite máximo de 40 horas, com duas folgas por semana em todo o país.
➡️A mudança reduz gradualmente a jornada máxima
de trabalho de 44 para 40 horas semanais.
As novas regras, no entanto,
não têm efeito imediato. A emenda foi publicada no Diário Oficial da União da
tarde desta sexta, em edição extra (leia mais abaixo).
A sessão solene de
promulgação ocorreu no plenário do Senado. Além do presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União-AP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), participaram da cerimônia.
Transição
A partir da publicação,
começa a contar o prazo de dois meses para a primeira etapa da transição,
quando a jornada máxima passa de 44 para 42 horas semanais e os trabalhadores
passam a ter direito aos dois dias de repouso remunerado.
A emenda altera o artigo 7º
da Constituição, que trata dos direitos dos trabalhadores. Um dos dois dias de
descanso deverá ser, preferencialmente, aos domingos.
Na prática, a garantia de
dois dias de repouso impede a adoção regular da chamada escala 6x1, na qual o
trabalhador atua seis dias e folga um (veja detalhes a seguir).
Por se tratar de uma mudança
na Constituição, o texto não depende de sanção presidencial. A promulgação é
feita pelo Congresso.
'Quebra de protocolo' e
discursos
Antes da abertura oficial da
sessão, o presidente do Senado “quebrou o protocolo” e pediu uma cadeira para o
senador Paulo Paim (PT-RS) na Mesa.
Paim participou da
Assembleia Nacional Constituinte de 1988, quando era deputado federal e atuou
nas negociações que reduziram a jornada de trabalho de 48 para 44 horas
semanais.
O parlamentar também
participou das discussões sobre o fim da escala 6x1 no Senado.
Ao discursar na cerimônia, o
presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, afirmou que o
Legislativo optou por enfrentar um tema que divide opiniões e afeta as relações
de trabalho.
“Mas o Legislativo escolheu
o caminho certo, não o caminho fácil. Escolheu discutir, ouvir e decidir”,
afirmou.
Alcolumbre também destacou o
impacto da mudança no tempo livre dos trabalhadores.
“Quanto vale mais tempo de
descanso? Quanto vale mais tempo com a família? Quanto vale mais tempo para
cuidar de si e de quem se ama?”, questionou.
“Para milhões de pessoas que
precisam trabalhar seis, às vezes sete dias por semana, a resposta é simples:
essas coisas não têm preço, têm valor”, prosseguiu.
Ao falar sobre a tramitação
da proposta, Alcolumbre afirmou que a mudança foi resultado de uma construção
entre Câmara e Senado.
“Nosso papel é construir
consensos, e não aprofundar divisões. O Congresso sempre esteve e sempre estará
de portas abertas para quem pensa diferente.”
O presidente da Câmara, por
sua vez, afirmou que a redução da jornada também deve ser vista como uma
questão de saúde e qualidade de vida.
“Durante muito tempo, a
jornada de trabalho foi tratada como uma discussão econômica, mas o Brasil
compreendeu que essa é também uma discussão social, que envolve saúde,
produtividade e qualidade de vida”, afirmou.
No fim do discurso, Motta
afirmou que o efeito da mudança na rotina dos brasileiros é mais importante do
que a própria cerimônia de promulgação.
“Daqui a alguns anos, talvez
os brasileiros não se lembrem dos debates, das votações ou mesmo desta
cerimônia de promulgação. E não precisam lembrar. O que importa é que os
efeitos dessas decisões sejam percebidos na vida cotidiana”, disse.
O presidente Lula, que
transformou o fim da escala 6x1 em uma das bandeiras da campanha à reeleição,
comparou a resistência à redução da jornada às críticas feitas no passado a
outras conquistas dos trabalhadores.
“Toda vez que a sociedade
conquista alguma coisa, aparece uma turma de um segmento da sociedade que não concorda,
dizendo que não vai dar certo. Foi assim em todas as lutas.”
Na sequência, rebateu o
argumento de que a redução da jornada pode causar prejuízos às empresas:
“Ninguém quer que a empresa
quebre. Ninguém. Ninguém aqui deseja que uma empresa quebre. Mas também ninguém
quer que um trabalhador morra por falta de descanso.”
E defendeu conciliar a
atividade empresarial com a saúde dos trabalhadores.
Lula também usou o discurso
para defender a relação entre o governo e o Congresso. A fala ocorre após um
período de forte desgaste entre o presidente e Davi Alcolumbre.
Os dois chegaram a ficar
rompidos após o Senado rejeitar, em abril, a indicação de Jorge Messias para
uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
A relação começou a ser
reconstruída em agosto e, após a retomada do diálogo, Alcolumbre destravou
propostas prioritárias para o governo que estavam paradas no Senado, entre elas
justamente a PEC do fim da escala 6x1.
“Outro dia parecia que eu e
você éramos dois inimigos. [...] De vez em quando ficam colocando inimizade
entre o presidente da República, o deputado, o senador. Isso é uma bobagem”,
afirmou Lula.
O presidente disse que
Executivo e Legislativo precisam conviver com as diferenças e ressaltou que a
composição do Congresso é definida pelos eleitores.
“O voto de um não é melhor
do que o voto do outro. São todos iguais. É o mesmo povo que está votando”,
afirmou. A reaproximação entre Lula e Alcolumbre.
Como será a transição
A implementação ocorrerá em
etapas:
● dois meses após a
promulgação: a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, com dois dias
de repouso remunerado;
● 12 meses depois da
primeira redução: o limite passa definitivamente a 40 horas semanais, sem
redução salarial.
A mudança também pode afetar
trabalhadores que já cumprem jornada de segunda a sexta-feira e atualmente
compensam durante a semana as horas que seriam trabalhadas no sábado.
As duas folgas não precisam
necessariamente ocorrer sábado e domingo, porque a distribuição pode variar
conforme a escala.
A redução da jornada não
elimina horas extras nem mecanismos como o banco de horas.
Aprovação no Senado
O Senado aprovou a proposta
na quarta-feira (14), em dois turnos. Foram 75 votos favoráveis e um contrário
nas duas votações. Hamilton Mourão (Republicanos-RS) foi o único senador a
votar contra o texto.
A aprovação ocorreu a 11
dias do segundo turno da eleição presidencial e representou uma vitória
política para Luiz Inácio Lula da Silva, que transformou o fim da escala 6x1 em
uma das bandeiras de sua campanha à reeleição.
Após a votação, Luiz Inácio
Lula da Silva classificou a aprovação como uma "vitória dos trabalhadores
e trabalhadoras".
Aposentadoria especial para
agentes de saúde
Na mesma sessão, o Congresso
também promulgou a emenda que estabelece aposentadoria especial para agentes
comunitários de saúde e agentes de combate às endemias.
A proposta havia sido
aprovada pelo Senado em julho, por 73 votos a 1, nos dois turnos, além de uma
abstenção.
O texto estabelece idade
mínima de 57 anos para mulheres e 60 anos para homens, desde que cumpridos 25
anos de contribuição e de exercício na atividade. Também prevê aposentadoria
integral com paridade para os servidores alcançados pelas regras.
À época da aprovação, a
medida era considerada uma "pauta-bomba" pelo governo. Uma projeção
do Ministério da Previdência apontava impacto fiscal de R$ 27 bilhões em dez
anos.
Por Kellen Barreto, Gabriella Soares, Caetano Tonet, Paloma Rodrigues, Mariana Laboissière, g1 e TV Globo — Brasília


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