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PALAVRA DO SENHOR – Ide às encruzilhadas

A Liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum (A) nos convida ao banquete do Reino de Deus. Essa é a terceira parábola que Jesus dirige, no Templo de Jerusalém, aos seus discípulos e aos detentores do poder: “aos chefes dos sacerdotes, anciãos do povo, aos escribas, aos Doutores da Lei e aos Fariseus” (cf. Mt 20, 1-6a. / 21, 28-32./ Mt 21, 33-43).

O Rei preparou a festa de casamento do Filho, mas os primeiros convidados (primeiros trabalhadores da vinha (cf. Mt 20, 1-6a) e o “filho do sim” que se torna o “filho do não” (Mt 21, 30)) recusaram o convite dando muitas desculpas fúteis e até agrediram os mensageiros que fizeram o convite. As parábolas denunciaram que estes, cheios de ambições, tomaram a administração da vinha e tornaram-na “inculta e selvagem” (cf. Is 5, 6/ Mt 21, 35b. 38-39).

A parábola contada por Jesus tem raiz na profecia de Isaías (25, 6-10a) quando Deus quis celebrar a vida e a liberdade com o seu povo, mas eles se fecharam na ingratidão. É instrutivo perceber os motivos pelos quais os convidados se negaram ir ao banquete. O Evangelho diz que eles preferiram seus “negócios e campos“ tratando a justiça do Reino de Deus com indiferença. A Ingratidão rompe a comunhão antes mesmo de a pessoa se sentar à mesa.

“Ide as encruzilhadas” (Cf. Mt 22, 9). No Antigo Oriente Médio, as encruzilhadas representavam a metáfora do lugar de decisão espiritual, transição e manifestação pública (cf. Jr 6, 16). É o lugar estratégico para as pessoas tomarem rumo é o lugar de sabedoria, Um exemplo disso está no profeta Ezequiel, onde o rei da Babilônia para em um cruzamento para consultar adivinhos antes de atacar a cidade (21,21). As encruzilhadas eram também lugares de assaltos ou cerco de guerras. O profeta Abdias (1, 14) usa esse termo para condenar os inimigos de Israel que se aproveitaram desses pontos estratégicos para capturar fugitivos. Mas, é também, lugar de inclusão (cf. Mt 22, 9).  

Eis a decisão amorosa de Deus em não se fechar no ressentimento por causa dos que não foram. A festa da vida está pronta e é preciso celebrar com quem deseja. Se antes havia uma prioridade à casa de Israel, agora Deus passa a ir às encruzilhadas, aos becos, pois “muita gente está acomodada dentro de seus palácios, templos, casas e condomínios”. Deus sabe que não pode contar muito com estes e vai atrás de outros.

São Gregório dizia que o Senhor mandou chamar “os bons e os maus” significando que a igreja na terra tem essa mistura, mas para permanecer na festa eterna precisa possuir o traje nupcial.

“As vestes adequadas”. Na Carta aos Gálatas, texto que ouvimos ao longo dessa semana, Paulo diz: “Vós que nascestes de Cristo, já vos revestistes de Cristo” (Gl 3, 27). Observem que os convidados para o banquete devem se vestir das mesmas vestes nupcial: revestir-se de Cristo. Aqui está a intepretação excelente para o evangelho das encruzilhadas. O sacramento do batismo nos reconfigura à estatura de Cristo (cf. Ef 4, 13), a viver a altura do Evangelho (cf. Fl 1, 27) e aos mesmos sentimentos Dele (Cf Fl 2,5).

Santo Agostinho e São Gregório Magno fizeram uma interpretação muito interessante desse evangelho de hoje ao dizerem que um convidado entrou no salão de festa, mas não estava vestido de caridade e compaixão que são caminhos da santidade batismal. Assim, entendemos que não basta aceitar o convite exterior ao convite da fé, pois a graça exige conversão.  

A metáfora da veste está em continuidade com ingratidão dos convidados, esse é o traje do desprezo, é aquela velha roupagem que o egoísta se orgulha de tê-la. A ingratidão não está no cardápio do Reino. É importante que não nos falte à memória de tudo o que Deus fez por nós. A verdadeira veste não é feita de conveniências humanas que geram guetos, mas não comunhão.

Existem velhas roupas que nós insistimos em usar e que não cabem no salão de festa: 1) A veste murmuração: “Tu os igualastes a nós?” (cf. Mt 20, 12). Como é amargo ao paladar do egoísta saber que Deus ama a todos. 2) A veste da autossuficiência: ele não quis as vestes da simplicidade, pois ele se achava elegante demais. No Reino de Deus não há lugar para quem apenas se vestindo de si mesmo. 3) O manto da indiferença: são aqueles que defendem apenas seus negócios. Estes vivem no mundo cinzento e o salmo 49(48) diz que “a própria morte é o pastor que os apascenta”. 4) A veste da exclusão: são aqueles que ficam murmurando teologias, regras, preceitos...para criar as linhas imaginárias e concretas de quem senta à mesa ou quem não deve sentar. Quem é ingrato na própria salvação tende a ser juiz da salvação alheia. Não se pode entrar no Reino de Deus com mentalidade antiga. 

Amanhã, celebraremos a Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Entre o evangelho deste domingo e o da Solenidade, o banquete do Reino de Deus é a forte simbologia para descrever a festa da Aliança. Em ambas narrativas encontramos a abundância da graça de Deus (vinho) que se manifesta diante das limitações da humanidade (àgua).

A chave pastoral e da conversão dos dois textos é dada na exigência da resposta humana para participar desta festa: “Fazei tudo o que meu filho vos disser” (Jo 2,5).

Viver na obediência do evangelho é o maior sinal de nossa pertença ao Reino de Deus. A água da nossa fraqueza (ambições) se torna no vinho novo da alegria e da salvação (que celebramos na Eucaristia). Em ambos os casos não somos chamados a um tribunal, mas a uma festa. Quem participa da Eucaristia tem que vestir-se desse traje.

Viva Nossa Senhora Aparecida!

 

Edjamir Silva Souza

Padre e Psicólogo

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